O conceito recorrente do comum se elabora sobre a ideia de que, em nosso mundo atual, a produção da riqueza e a vida social dependem em grande medida da comunicação, da cooperação, dos afetos e da criatividade coletiva (Negri e Hardt). O comum compreenderia então os ambientes de recursos compartilhados que são gerados pela participação de muitos e que constituem o tecido produtivo essencial da metrópole contemporânea. Se fazemos esta conexão entre o comum e a produção, temos que pensar na economia política, no poder, nos rendimentos e nos conflitos.

No entanto, devido a nossa tradição de separação entre o privado e o público, da propriedade e do individualismo, a propriedade coletiva é todavia difícil de se ver para nossos olhos do final do século XX. Propomos, portanto, uma busca ao comum, uma busca que tomará a forma de um processo de mapeamento. Entendemos a cartografia segundo proposto por Deleuze e Guattari, e como artistas e ativistas sociais a tem usado durante a última década, como uma atuação que pode se converter em uma reflexão, uma obra de arte, uma ação social.

O Brasil, como a América Latina toda, é um país especial nas práticas dos commons. O comum bebe de tradições ibéricas (faixanais, rossios, propiedades comunais), da cultura afro (quilombos, criação cultural coletiva, propriedades conjuntas) e indígenas (propriedade coletiva, malokas). Do mutirão ao conceito de ‘comunidade’ que substitui a palavra ‘favela’, o Brasil é um celeiro de práticas do comum. Porém, o mercado e o capitalismo estão castigando o comum sem piedade.

Assembleia popular.

Assembleia popular de BH.

 

 

 

 

 

Belo Horizonte é o objeto deste projeto de mapeamento. Depois da recente e viva onda de protestos, a cidade virou exemplo nítido das cidades rebeldes das que fala David Harvey. Os protestos, as assembléias populares, as intervenções urbanas, apontam para a mobilidade urbana como um bem comum e reivindicam o direito à cidade. Apontam para um direito à cidade, para um novo espaço comum e participativo de convivência.

Com a participação de arquitetos e artistas latino-americanos em parceria com o Grupo de Pesquisa INDISCIPLINAR, o laboratório discutirá as transformações da cidade a partir de um olhar crítico às políticas urbanas atualmente em vigor. Os mapeamentos a serem realizados vão abranger áreas atingidas pela Operação Urbana Consorciada Nova BH, que propõe modificar radicalmente a estrutura urbana de 7% do território da cidade. Pretende-se evidenciar não somente os processos gentrificatórios em toda a região central da cidade, mas principalmente revelar as produções do comum no espaço.

Programa:

PRIMEIRA PARTE: AULAS TEÓRICAS

Lugar: sala 200 da Escola de Arquitetura da UFMGS.

Disciplinas envolvidas:

Tópicos em Bens Culturais, Tecnologia e Território I
Pós-graduação: Mestrado em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável
Carga horária semestral: 30 horas
Número de créditos: 02
Ementa: Temas especiais em Bens Culturais, Tecnologia e Território, conferências, seminários e debates com profissionais convidados, contemplando assuntos correlatos.
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Cartografias Emergentes
Graduação: Disciplina aberta a todos os cursos de graduação da UFMG

Aula 01: segunda 03 de fevereiro tarde (entre 14:00 e 18:00)

Primeira Parte:
Apresentação geral da disciplina, do evento CARTOGRAFIAS BIOPOTENTES (Natacha Rena) e do workshop MAPEANDO O COMUM EM BH (Pablo de Soto)
Apresentação dos conceitos (Natacha Rena): cartografia (através dos autores Gilles Deleuze, Félix Guattari, Suely Rolnik); biopoder, biopolítica, biopotência + imperio e multidão (através dos autores Michel Foucault, Antonio Negri, Michael Hardt, Peter Pál Pelbart.

Segunda Parte:
Apresentação da prática cartográfica de hackitectura.net. Os mapas do #15M: O arte da cartografia da multidao conectada.

Aula 02: terça 04 de fevereiro_tarde (entre 14:00 e 18:00)

Apresentação de Cases envolvendo o urbano/espaço:

Primeira Parte:
Projetos do Grupo de Pesquisa Indisciplinar (Natacha Rena e equipe Indisciplinar) copesquisa militante em BH: Operaçao Urbana Consorciada Nova BH (Joviano Mayer), Vila Dias (Igor Bernardes), Fica Ficus (Natacha Rena), Corredor Cultural (Paula Bruzzi), Ocupações de terrenos (Joviano Mayer), Espaço Comum Luiz Estrela (Priscila Musa).

Segunda Parte:
Apresentação dos conceitos (Pablo de Soto): Comum Urbano/Commonwealth (através dos autores Antonio Negri e Michael Hardt) + Harvey, Linebaugh, Ostrom, Observatorio Metropolitano de Madrid. Mapeando o Comum (experiências em Atenas, Istanbul, Rio de Janeiro).

Aula 03 quarta 05 de fevereiro tarde (entre 14:00 e 18:00)

Rodada de apresentação dos interesses específicos/ coletivos de cada um dos participantes da disciplina (graduação/ pós-graduação).
Apresentação da Planilha contendo os Nomes dos commons belorizontinos e Organização dos grupos distribuídos entres os commons e sugestão de modificações na planilha para adaptar à realidade local/ global.
+
Noite: Seminário no Teatro OIFuturo 19 horas Insurgências: arte, arquitetura e resistência positiva na américa latina. 4 convidados internacionais apresentarão suas experiências sob o tema: INSURGÊNCIAS: ARTE, ARQUITETURA E RESISTÊNCIA POSITIVA NA AMÉRICA LATINA.

SEGUNDA PARTE: OFICINA

photo (5)

Pablo de Soto e Grupo Indisciplinar com alunos das duas disciplinas que já iniciaram os debates teóricos na Escola de Arquitetura + alguns participantes selecionados das inscrições antecipadas + representantes de movimentos sociais convidados.

No contexto do evento Cartografías Biopotentes.

Lugar: Casa UNA (lotação máxima 60 pessoas).

Quinta 06 de fevereiro tarde (entre 14:00 e 18:00)

Sexta 07 de fevereiro tarde (entre 14:00 e 18:00)

Sábado 08 de fevereiro tarde (entre 14:00 e 18:00)

Domingo 09 de fevereiro. Teatro do Icbeu manha (entre 11:00 e 13:00). Apresentação do processo/resultados

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O método de mapeamento:

Primeira parte. Introdução à teoria

A primeira parte é a discussão da noção de comum com base na literatura, principalmente a tese Commonwealth de A. Negri & M. Hardt, em diálogo com as noções D. Harvey, E. Onstrom, D. Bollier e P. Linebaugh. Trabalhando em pequenos grupos, cada qual seleciona um conjunto de bens comuns para apresentá-los ao demais participantes. Aqueles primeiros bens comuns são adicionados em um projeto de mapa, e depois de ampla discussão com o resto do grupo, alguns deles são selecionados para serem pesquisados mais profundamente.

commonwealth_as_laboratory

Segunda parte. Parametrização

O segundo passo consiste na adição de quatro parâmetros básicos para caracterizar os bens comuns selecionados. O primeiro parâmetro é a definição do nome que representa o bem comum discutido. Em seguida, pensa-se nos atores que tentam preservar este determinado bem comum. O terceiro parâmetro analisado é o processo pelo qual os atores tentam preservar tal bem comum. O ultimo passo é distinguir o conflito, ou seja, a maneira pela qual o bem comum está ameaçado. É válido observar que, para se alcançar uma definição mais ampla de cada bem comum, é necessário explorar mais parâmetros, tais como: riqueza, benefícios, rendas geradas (diretas, se for o caso); escala (microlocal, bairro, cidade, região ou ambiente global), se o bem comum é aberto a todos ou restrito a uma comunidade fechada, dentre outros.

PARÂMETROS

Terceira parte. Criação de videos documentais curtos

O último passo consiste na produção de um video curto para explicar e descrever cada bem comum analisado. Os videos são produzidos em pequenos grupos, mas os créditos são atribuídos a todos os integrantes da oficina, uma vez que todos participam da edição final de cada produto audiovisual.

Como exemplo:

Por fim, os vídeos som adicionados ao mapa digital interativo

Bibliografía:

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CAVA, B. A multidão foi ao deserto. As manifestações no Brasil em 2013 (JUN-OUT). Annablume: São Paulo, 2013.

DELEUZE, Gilles & GUATTARI, Félix. Mil Platôs, Capitalismo e Esquizofrenia, Rio
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DIAS, B. P.; NEVES, J. (orgs) A Política dos Muitos. Povo, Classes e Multidão. Edições tinta-da-china: Lisboa. 2010.

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PASSOS, E. ; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. Pistas do Método da Cartografia. Porto Alegre: Editora Sulina, 2009.

PELBART, P. P. Vida capital. Ensaios de biopolítica. Ed. Iluminuras: São Paulo. 2003.

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PÉLBART P.P. Elementos para uma cartografia da grupalidade. In: SAADI, F.; GARCIA, S. (Org.). Próximo ato: questões da teatralidade contemporânea. São Paulo: Itaú Cultural, 2008. http://www.itaucultural.org.br/bcodemidias/001081.pdf

SANTOS, R. E. Ativismos Cartográficos: notas sobre formas e usos da representação especial e jogos de poder. In: Revista Geográfica de América Central Número Especial EGAL, 2011- Costa Rica II Semestre 2011 pp. 1-17.

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ICONOCLASISTAS. Manual de Mapeo Colectivo, 2013.