#Dobras 8 // VAR: Copa do Mundo e vigilância

POR VICTOR VICENTE*

A fase de grupos da Copa do Mundo chegou ao fim e já dá para afirmar com tranquilidade que o protagonismo da competição não foi do Neymar, Cristiano Ronaldo ou Messi. Quem ajudou a definir as principais jogadas, a figura decisiva nos lances mais emocionantes, não tem pernas malhadas, não corre muito mais do que você, nem mesmo faz graça com a bola no pé. O protagonista do início da Copa do Mundo foi o VAR, o árbitro assistente de vídeo.

De agora em diante, poucos gestos darão tanto medo (ou esperança) quanto o retângulo imaginário desenhado no ar pelas mãos do árbitro principal, que, alertado pelo olhar maquínico do sistema de videovigilância do estádio, deve abandonar as incertezas do momento do jogo para ser abstraído a uma outra ordem temporal – a do televisor que repete a jogada sob diferentes ângulos.

O olhar vigilante da máquina parece possibilitar a realização de um sonho antigo: o de voltar no tempo, revisitar uma decisão errada e corrigi-la. Não à toa já tem gente por aí pedindo um “VAR pessoal” para alertar sobre aquelas escolhas que trazem um baita arrependimento. Mas será que é isso mesmo? O que os primeiros jogos da Copa do Mundo podem ensinar sobre o uso da vigilância para regulação social e aplicação de regras?

COMO O VAR FUNCIONA

A equipe de árbitros assistentes de vídeo não atua nos estádios. Um Centro de Operações foi criado para eles no International Broadcast Centre (IBC), em Moscou. Conectado por fibra ótica, o espaço recebe imagens captadas de todos os 12 estádios espalhados pelo território russo em tempo real e as envia de volta para consulta do juiz.

Além do VAR, que atua como chefe da equipe de vídeo, a sala tem outros três assistentes de arbitragem, cada um com uma função – e suas próprias telas de monitoramento. Os profissionais têm acesso a 33 câmeras, oito das quais são “super-slow-motion” e quatro “ultra-slow-motion”. A equipe também acessa duas câmeras de impedimento, que estão disponíveis apenas para os árbitros assistentes de vídeo. Na imagem abaixo você vê a disposição padrão das câmeras nos estádios.

O árbitro principal continua sendo a autoridade máxima dos gramados, como não cansa de nos lembrar Arnaldo Cezar Coelho. Por isso, o VAR só pode sugerir revisões da decisão do juiz em quatro casos: gols, pênaltis, cartões vermelhos e identidade de jogador trocada, como quando um jogador errado é punido. Esse modelo tenta equilibrar a autonomia do juiz com a tentativa de maior controle em um espaço vigiado ostensivamente.

Há quem diga que o VAR vai acabar com o emprego dos árbitros do campo, que com o tempo seriam substituídos por juízes à distância, dotados desse olho-máquina que tudo vê. Outros afirmam que o VAR vai punir os jogadores que simulam faltas e deixar o jogo mais justo (alguém avisa ao Neymar). Tudo isso pode ser verdade no longo prazo, mas o que fica claro desde já é a ambiguidade do sistema. Ao invés de trazer mais certezas, o VAR adicionou uma nova camada de complexidade nas partidas.

VAR NOSSO DE CADA DIA

A videovigilância não é uma exclusividade dos estádios da Copa do Mundo. Cada vez mais, governos adotam esse modelo baseado em câmeras e centros de operações para a gestão e regulação das cidades. O Rio de Janeiro é apenas um dos inúmeros exemplos possíveis dessa prática. Na imagem abaixo, colocamos os dois centros lado a lado.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Como sugere a pesquisadora Fernanda Bruno, a vigilância da nossa época é marcada por sua generalização: seja dos dispositivos que vigiam como dos seus alvos. Este caráter distribuído da vigilância dilui a figura do indivíduo suspeito para a massa de cidadãos. Agora, somos todos vigiáveis ou vigiados. A vigilância passa a ser encarada como parte de uma cultura, alerta David Lyon. Todos nós nos submetemos à vigilância ou tentamos proteger nossa privacidade, controlando os nossos dados pessoais. Ao mesmo tempo, participamos da vigilância para monitorar nossos filhos, acompanhar a vida de outras pessoas ou proteger nossas propriedades.

Aliás, quem aqui não gosta de dar uma vigiadinha rápida no stories do instagram daquele crush? Essa é a cultura da vigilância, cheia de termos em inglês mesmo, como é para ser.

Que os jogadores profissionais sejam alvo de um sistema de vigilância tão potente quanto este não deve surpreender ninguém. O VAR pode, inclusive, ser compreendido a partir dessa transformação social anterior que vê na transparência a possibilidade de uma sociedade mais ética e justa. Bem parecido com o que está acontecendo na China, inclusive, como você pode ler aqui.

AS LIÇÕES DO VAR NA COPA DO MUNDO

Na Bundesliga (a liga alemã de futebol), o VAR já é usado desde 2017. No início, o sistema era aplicado apenas para erros claros do árbitro principal. O problema começou quando Hellmut Krug, o chefão da equipe de videovigilância, emitiu instruções secretas para os assistentes de vídeo começarem a interferir nas partidas sempre que encontrassem alguma decisão errada em vídeo, não só as mais óbvias.  A confusão aumentou quando Krug foi denunciado, e depois demitido, por ter influenciado decisões do árbitro principal sobre um pênalti em favor de seu time do coração, o Schalke 04.

O que o caso ajuda a mostrar é que existe a possibilidade, e talvez a tendência, de o uso do VAR se generalizar de decisões localizadas para qualquer decisão errada do juiz. Vale lembrar da 1ª rodada da Copa do Mundo, no empate por 1×1 do Brasil contra a Suíça. A partida teve duas jogadas polêmicas: a falta no zagueiro Miranda durante o gol suíço e o pênalti não marcado no atacante Gabriel Jesus.

Ambas jogadas não foram revisadas pelo VAR, o que gerou incômodo nos jogadores brasileiros e uma comoção na CBF, que enviou uma reclamação formal à FIFA exigindo explicações. Na carta, a confederação afirmou que a decisão de revisar uma jogada e de corrigi-la não depende do juiz do jogo, mas sim do árbitro que tem o apoio do sistema de vídeo. Se esse for mesmo o caso, os árbitros principais podem começar a assumir uma posição neutra no apito e esperar o auxílio da telinha. Não decidir nada até que a reprodução em vídeo flagre o fato ocorrido nas jogadas e o avise.

A lição que fica: agora, vão reclamar quando o VAR não for usado.

Já outra partida da 3ª rodada mostra que o uso do VAR também pode ser contestado. No jogo Portugal (1) vs. Irã (1), o árbitro considerou normal uma disputa ocorrida na área da seleção portuguesa. Para seu azar, a jogada foi revisada pelo VAR e, depois de ficar de olho na telinha, o juiz enxergou um pênalti no lance. A decisão que deixou Portugal no segundo lugar do grupo foi considerada um erro e enfureceu torcedores e alguns comentaristas – profissionais e da Internet. O árbitro teria caído na pressão dos jogadores iranianos, afinal, e concedido a penalidade.

A lição que fica: agora, também vão reclamar quando o VAR for usado.

O que esses dois jogos mostram, em resumo, é que o VAR não eliminou do jogo a interpretação, o calor do momento. O uso da tecnologia de vídeo não inaugurou a utopia da objetividade na aplicação das regras. Os sonhos de assepsia no esporte deverão ficar para depois, pois, hoje, o VAR mais representa uma nova variável a ser gerenciada. Se para as entidades esportivas o VAR é uma solução que visa controlar e assegurar a regulação do jogo, para os jogadores é apenas uma nova regra a ser subvertida – seja em simulações de falta mais convincentes ou colocando a mão na boca quando bater aquela vontade de falar É o Buda. Esse é meu guru”.

 

*Victor Vicente é pesquisador do MediaLab.UFRJ e coordenador de comunicação do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (itsrio.org). Na Internet, ele é /vfrvicente.