#Dobras 11 // Algoritmização da vida: premissas para estudos de perfis ciborgues

Por Lorena Regattieri 

1. Todo BOT é um modo de existência em rede

A rede como modo de existência é o ponto inicial para explorar os diferentes modos de relação com o real. A rede compõe, hoje, o cerne do arcabouço teórico capaz de compreender as transformações políticas, estéticas, econômicas e tecnológicas de nosso tempo. A noção de rede pode ser vista em estudos sobre sistemas complexos de logística, computação, transporte, militar, biológicas e da circulação de informação na sociedade contemporânea.

Deligny (2015), segundo Burke (2013), produz cartografias em forma de rede que lembram os mapas visuais das mídias digitais da atualidade. Uma ecologia social do topos. Para Deligny (2005, p.18), “A rede é um modo de ser. […] Assim, e quando o espaço se torna concentracionário, a formação de uma rede cria uma espécie de fora que permite o humano sobreviver”. Das linhas e dos traços que uma rede tem, não se sabe quem opera a trama ou se as próprias entidades são tramadas no processo. É preciso olhar para as redes e para os mapas traçados pelas entidades que compõem uma rede. Acontece que a prática de traçar os trajetos supõe um reparar. Isto é, para Deligny (2015), reparar está inserido na percepção do mínimo gesto, nas possibilidades do traçado das entidades que compõe a rede. O que seria possível reparar? Aquilo que está ao alcance dos nossos olhos. Não obstante, só nos resta observar, na medida em que as linhas de errânciaformam uma “estrutura” ou uma certa arquitetura, ou, ainda, uma paisagem de rede. Observar para apontar aquilo que permite o agir. Aquilo que é reparável não representa e não constitui códigos. A partir desse conceito de rede como modo de existência, existe apenas “fazer o necessário para que a rede se trame” (Ibidem, p. 109).

Às redes , quando se formam, só falta a fala.

A fala lhes é dada pela GENTE. A fala que é dada à rede determina seu projeto, sua causa e tudo o que se quiser que se possa dizer, estando entendido que a rede engajada codificará sua linguagem a fim de permanecer clandestina, e até secreta. Em outras palavras, a rede se põe a saber – por assim dizer – o que quer. Toma-se por coluna vertebral do projeto. (DELIGNY, 2015, p. 104)

 

2. Todo BOT difere

A rede, na microssociologia de Tarde (2007), reúne elementos para uma teoria relacional. Assim, investir nas relações e recuperar a filosofia, para ele, é o que caracteriza a natureza, que é sempre a diferença. “Existir é diferir” (Ibidem, p. 70). Para desenvolver seu pensamento sobre o infinitesinal, foi até a noção de mônada, em Leibniz. As mônadas são as partículas elementares, as substâncias simples de que os compostos são feitos: elas são, portanto, diferenciadas (dotadas de qualidades que as singularizam umas com relação às outras) e diferenciantes (animadas por uma potência imanente de mudança contínua ou de diferenciação). […] elas dizem respeito às nuanças, ao infinitamente pequeno, ao infinitesimal que constitui toda a diferença. (VIANA VARGAS, 2007, p. 12). Ainda assim, Tarde apud Viana Vargas (1999) efetua modificações na proposição de Leibniz para constituir uma sociologia infinitesinal. É a partir desse movimento tardiano que nos interessa continuar – o abandono da harmonia, do confinamento do monismo, para fluir com o caos que rege o mundo. Não existe essência para a mônada, apenas as ações que exercem umas sobre as outras, a maneira como se

Dessa maneira, os investimentos de cada mônada têm, em menor ou maior grau, forças “psíquicas” (desejo, crença, percepção, memória). O bot difere na medida em que resulta dos graus de investimento dessa diferenciação entre as entidades no fluxo da rede. Segundo Lazzarato (2006, p. 180),

O indivíduo, com seu computador, é uma mônada aberta que se comunica à distância com outras mônadas, todas inseridas em uma rede não hierárquica e descentrada. A tela é uma rede de redes, cuja heterogeneidade é impossível de ser unificada, totalizada, fusionada em um todo coletivo. Todas as mônadas têm, em graus diferentes, sua própria capacidade de agenciamento, de apreensão, de captura de outras mônadas, ou seja, de constituição de redes. A potência de agenciamento não é expropriada, centralizada, mas se distribui, em diferentes graus, na superfície das redes. A atualização das redes depende, então, da potência de agenciamento, de conexão, que se faz, como quer Tarde, bem de perto. […] A mônada está inserida nos fluxos de signos, de sons, das imagens que ela pode fazer bifurcar (invenção) ou propagar (repetição).

 

3. Todo BOT é fluxo

Serres (1996) propõe um conceito de rede que denomina como rede tabular. Em um diagrama em rede, há um certo instante dado – reconhecido como uma situação móvel. Esse instante é composto por uma pluralidade de camadas conectadas por uma pluralidade de caminhos. Cada caminho é representante de um contato ou relação entre duas ou mais teses ou um fluxo de determinação (entendido como uma relação ou ação, pode ser uma analogia, dedução, influência, oposição, reação). Por definição, nenhum ponto é favorecido em detrimento de outro, nenhum é inequivocamente subordinado a isto ou aquilo; cada um tem seu próprio poder (possivelmente variável ao longo do tempo), a sua zona de radiação e também a sua força original. (SERRES, 1996, p. 09, tradução nossa). Os caminhos na rede transportam fluxos de determinação diferentes e variáveis ao longo do tempo. No diagrama ou tabela de rede proposta pelo autor, existe uma reciprocidade entre as camadas e os caminhos, podendo também haver uma certa dualidade. A camada é compreendida como uma interseção entre um ou mais caminhos. Uma tese pode constituir-se como a interseção de uma multiplicidade de relações ou, ainda, um elemento que nasce como um sopro a partir da confluência da junção de outras determinações. Portanto, a partir desse conceito de rede, se maximiza o desejo de diferenciação, pois opera pela pluralidade e complexidade de vias de mediação. Esse modelo diagramático afasta-se do método da dialética tradicional (modelo linear serializado). Caracteriza-se pelo modo tabela ou matriz, portanto, relacional.

 

4. Todo BOT é uma ecologia

 Antoun (2004) examina, a partir da noção da organização da sociedade em rede, questões de ordem social da integração e dissolução, em seguida aos aparecimentos das comunidades virtuais; questões sobre a arquitetura das formações em redes; e também a questão sobre o que faz durar a cooperação ou o conflito na “vida comunitária” (Ibidem, p.69) quando se constituem relações emancipadas da organização em rede. Por outro lado, o autor problematiza a parceria e a servidão nas relações sociais quando as relações constituídas da sociedade se fazem “a partir da disseminação das redes de parceria” (Ibidem, p. 69). Tão logo, a vida comunitária em rede vai incidir na democracia, e o debate público deixa de ser restrito à esfera da vida particular de participação social. A comunidade virtual surge na internet e, aponta Antoun (Ibidem, p.81), torna-se um espaço de relação de valores e confiança: elas surgiram na Internet baseadas em uma multiplicação do conhecimento produzido e apropriado como um bem comum. Fundadas na lógica de que o participante agrega a informação ou conhecimento que possui para o debate, tendo como contrapartida todas as informações e conhecimentos dos demais membros, as comunidades virtuais produziram inumeráveis serviços de comunicação nos quais o conhecimento que se faz através das demandas e das ofertas dos usuários se traduz em valores e confiança (Kollock e Smith, 1996).

                                                                                          

5. Todo BOT é produto de uma economia política

Para Lazzarato (2010), o capitalismo contemporâneo se apoia em máquinas assignificantes. Diferente das teorias que pensam o capitalismo dito cognitivo ou cultural, que se daria com primazia da linguagem e outras semióticas significantes, ele afirma que o capital opera a partir de uma multiplicidade de semióticas. Nas sociedades pós-industriais, o contexto da economia do desejo e do regime de atenção fica evidente. O capitalismo contemporâneo opera, cada vez mais, através da produção, do tratamento e da exploração da subjetividade. A sociedade da informação consome regimes de signos (semiótica), sejam eles significantes, como é o caso da linguagem, ou assignificantes, como é o caso do código computacional ou de um algoritmo.

Desde o final do século XIX, o poder das máquinas de expressão foi multiplicado pelos dispositivos tecnológicos de reprodução que agem à distância (rádio, telefone, televisão, internet). As redes e os fluxos da cooperação entre os cérebros, e as forças vivas que animam estas redes (a memória e seu conatus, a atenção), foram reduplicadas pelas redes, fluxos e memórias artificiais. A co-criação e a co-efetuação da cooperação são ativadas, estruturadas e controladas por uma potência de agenciamento, de disjunção e coordenação, que implica, ao mesmo tempo, forças humanas e des-humanas […]. Os processos de criação e efetuação de mundos serão doravante indissociáveis de uma política de redes, de fluxos e de memórias artificiais. A circulação da palavra (agenciamentos de enunciação), das imagens (percepção comum), dos conhecimentos, das informações e dos saberes (inteligência comum) é o lugar do enfrentamento, ao mesmo tempo estético e tecnológico, espaço de uma batalha pela criação do sensível e dos dispositivos de expressão que o efetuam. (LAZZARATO, 2006, p. 159)

 

6. Todo BOT é uma subjetivação

O sujeito tem vivido as múltiplas camadas da vida entre a internet e a rua, investindo seu tempo e produzindo narrativas coletivas de acontecimentos públicos. A revolução tecnológica das inteligências artificiais, do Big Data, junto com a comunicação e a cultura de massa, está reformulando o modo de contar histórias e de se expressar: a ubiquidade da vida nos coloca em regimes de visibilidade e subjetividade em diferentes interfaces (BRUNO, 2013). Funcionam plenamente investindo na multiplicidade de pontos de vista, em que o tempo é apenas questão de posicionamento e os processos de subjetivação são a última fronteira de captura, junto com o próprio corpo do sujeito. Para Guattari (2006), a subjetividade é plural. A produção da subjetividade ultrapassa a dualidade entre sujeito individual e coletividade e problematiza as questões do inconsciente que ressoam na atualidade. O presente histórico nos mostra que a reivindicação de uma “singularidade subjetiva – querelas linguísticas, reivindicações autonomistas, questões nacionalísticas, nacionais que, em uma ambiguidade total” (Ibidem, p. 13), oscilam entre reivindicações de cunho liberal nacional e fixações denominadas, assim como “reterritorializações conservadoras da subjetividade” (Ibidem, p. 13). No contemporâneo, temos nas transformações tecnológicas uma “tendência à homogeneização universalizante e reducionista da subjetividade e uma tendência heterogenética, quer dizer, um reforço da heterogeneidade e da singularização de seus componentes” (Ibidem, p. 15). Os processos de produção da subjetividade no capitalismo são adjetivados por uma guerra de disputa de atenção (ROLNIK & GUATTARI, 2013). A produção da subjetividade capitalística, que nos afeta através da família, da mídia, da internet, dos equipamentos que nos rodeiam, são mais do que ideias, são “sistemas de conexão direta entre, de um lado, as grandes máquinas produtoras e de controle social e, do outro, as instâncias psíquicas, a maneira de perceber o mundo” (Ibidem, p. 78).

Entretanto, Guattari (2006, 2015) passa longe do pessimismo, indicando que a produção maquínica da subjetividade opera para o melhor ou para o pior. Nesse sentido, depende mesmo é da “articulação com o agenciamento coletivo de enunciação” (Ibidem, 2006, p. 15). Apostando numa era pós-mídia, Guattari (2006) já considerava os componentes telemáticos, informáticos e da robótica compondo a subjetividade psicológica. Por meio da criação de outros Universos de referências, da evolução tecnológica e da experimentação social desses novos territórios, seria possível sair da opressão e do regime midiático baseado em modelos de identificação. A internet pode ser esse território pós-mídia, desde que os sujeitos se reapropriem dela e a ressingularizem. Como um local de expressão de indignação, ironia, protesto, ativismo, seja ele partidário ou por outras causas, a internet – as redes sociais, em especial –, demonstra esse potencial de retomada do ciberespaço na era pós-mídia. Assim, nas redes sociais, se materializa o corpo desse devir-ciborgue (TORET & PERÉS de LAMA, 2015) e dessa protosubjetividade (GUATARRI, 2015) em relação com agentes ontologicamente automatizados.

 

Referências:

BURK, D. Living Network Ecologies: A triptych on the universe of Fernand Deligny. Disponível em:http://sites.fhi.duke.edu/ecologyofnetworks/2013/04/23/living-network-ecologies-a-triptych-on-the-universe-of-fernand-deligny/

BRUNO, F. Máquinas de ver, modos de ser: vigilância, tecnologia e subjetividade. Porto Alegre: Editora Sulina, 2013.

DELIGNY, Fernand. O aracniano e outros textos. São Paulo: 1 edições, 2015.

LAZZARATO, Maurizio. Signos, Máquinas, Subjetividades. São Paulo: N-1, 2014.

SERRES, M. The Parasite. Traduzido por Lawrence R. Schehr. Posthumanities 1. Minneapolis et al: University of Minnesota Press. 2007.

TARDE, Gabriel. Monadologia e Sociologia e Outros Ensaios. São Paulo: Cosac & Naify, 2007.

ROLNIK, S; GUATTARI, F. Micropolíticas: cartografias do desejo. Petrópolis: Editora Vozes, 2005.

TORET, J.; PÉREZ DE LAMA, J. Devenir cyborg, era postmediática y máquinas tecnopolíticas Guattari en la sociedad red. In: Félix Guattari. Los ecos del pensar. Entre la filosofía, el arte y la clínica. (org) Gabriela Berti. Valencia: Ediciones Letras Salvajes, 2012.

GUATTARI, F. A Propósito de las Máquinas. In: ¿Que és la Ecosofía?. (Org.) Stéphane Nadaud. Ciudad Autônoma de Buenos Aires: Cactus, 2015.

_____. Caosmose: Um novo paradigma estético. São Paulo: Ed. 34, 2006.

_____. As três ecologias. Tradução Maria Cristina F. Bittencourt. Campinas, SP: Papirus, 1990.