#Dobras 15 // Instagramização da vida: uma curadoria do visível

Por Anna Bentes

 

Você faz do Instagram um lugar para descobrir as maravilhas no mundo. Cada foto e vídeo – desde as menores coisas até as mais épicas – abre uma janela para as pessoas ampliarem suas experiências e se conectarem de novas maneiras.[1]

Espaços Instagrameáveis

As empresárias Madelyn Markoe e Jessie Barker, ao lançarem seu primeiro restaurante, o Media Noche[1], na cidade de São Francisco, estavam sem inspirações para sugerir ao designer responsável pela decoração do ambiente. Porém, uma orientação foi clara: “nós queríamos que fosse ‘instagrameável[2]”. Compondo o restaurante casual de culinária cubana, o interior instagrameável incluiu azulejos florais coloridos, papel de parede com estampas de bananas, um quadro retrô para apresentação do menu, um mural externo estampado com flamingos rosas e outros detalhes que comporiam um ambiente esteticamente amigável para fotos a serem compartilhadas no Instagram.

Esta não foi a primeira e nem última iniciativa voltada à criação de photo-friendly background materials em espaços privados para inspirar postagens na rede social[3]. Também em São Francisco, o restaurante Bellota[4], com suas lâmpadas personalizadas, permite aos seus clientes ajustar a iluminação para uma foto perfeita. Nesta mesma direção, empresas como Paperwhite Studio[5] se especializam em projetar cardápios, porta-copos e outros itens de decoração com design atraente a fim de transformá-los em iscas para o Instagram. Ou ainda, no bar Mother of Pearl, em Nova York, o drink Shark Eye, bebida vermelha servida em uma cabeça de tubarão de cerâmica, foi eleito o coquetel mais digno de Instagram pela Time Out New York[6] em 2016.

A estilização de ambientes ou produtos instagrameáveis não aparece como requisito apenas para o circuito gastronômico, mas vem também entrando na pauta de algumas instituições culturais[7]. O terraço do San Francisco Museum of Modern Art, por exemplo, foi em parte desenhado para incluir vistas que encorajassem a produção de selfies[8]. Já o Getty Museum, em Brentwood, rearranjou espelhos decorativos de uma de suas galerias a fim de atrair a produção e o compartilhamento de imagens. Em uma retrospectiva do artista Jeff Koons, no Centre Pompidou, em Paris, os visitantes podiam seguir as dicas de adesivos no chão que indicavam “o melhor lugar para tirar uma selfie” com uma das obras. Ainda, no site do Birmingham Museum of Art em Birmingham[9], Alabama, a instituição descreve sua série de arte de verão como “ouro do Instagram” e oferece uma lista com os melhores lugares do museu para tirar uma selfie.

Além disso, a busca por espaços instagrameáveis vem orientando também o mercado de turismo. Embora mantenham sugestões de pontos turísticos tradicionais, alguns guias de viagens incluem indicações de “lugares mais instagrameáveis”[10] que não necessariamente estariam no radar de turistas[11] se não fosse pela perspectiva por produzir uma foto a ser compartilhada no aplicativo. Dentre essas sugestões, estão pontos da cidade com street art, tampas de bueiro, faixas de pedestre e túneis de metrô.

O Instagram não estaria transformando apenas espaços físicos, públicos e privados, objetos e modos de se relacionar com as cidades[12], mas também as próprias mídias e imagens. Reconhecendo a relevância de tal mídia social nos novos modos atuais de produção e circulação de imagens, em seu livro Instagram and the contemporary image[13] , Lev Manovich chama de “instagramismo” a combinação entre as formas de mídia que incorporam a captura de imagem e técnicas de design a conteúdos particulares. Ao se perguntar sobre o papel da plataforma na história das mídias, o autor afirma que, além de atualizar a câmera, o papel fotográfico, a sala escura de revelação, o espaço de exibição e as formas de publicação em um mesmo dispositivo, ela permite editar as imagens, fazer pesquisas, interagir com outras pessoas, conversar com fotógrafos, criar coleções fotográficas, entre outras funcionalidades. Por esses e outros motivos, o autor entende que “esta única plataforma é um notável desenvolvimento na história da mídia moderna”[14] e que o instagramismo tornou-se o estilo de uma aula global de design.

 

Instagramização da vida

Esses e outros processos nos apontam para o papel central que o Instagram vem assumindo nos modos de produção e consumo de imagens assim como na modulação de nossas experiências com o espaço e o visível através de tecnologias digitais nas sociedades contemporâneas. A relevância deste dispositivo nas formas de sociabilidade e produção de subjetividade no presente qualificaria o processo que denominamos instagramização da vida.

Com suas instantâneas e simplificadas ferramentas para registrar, editar, compartilhar e consumir imagens bem como sua mobilidade associada aos smartphones, este aplicativo-empresa-rede social é um dos dispositivos responsáveis por ampliar significativamente o que hoje é considerado “fotografável” e “publicável” assim como por intensificar cada vez mais nossos desejos de ver e ser visto.

Ao estabelecer conexões sociais através do mecanismo denominado seguir, cada usuário assume uma dupla posição de seguidor (de outros perfis) e seguido (por outros perfis). Este tipo de interação não está necessariamente atrelado a uma relação social a priori para além do aplicativo, como é o exemplo do Facebook, onde as conexões se estabelecem sob o termo “amigo”. Ao contrário, os laços sociais costuram-se pelo interesse de acompanhar regularmente o conteúdo publicado por aqueles que segue e de ser acompanhado por aqueles que te seguem.

O interesse em seguir é, portanto, a premissa dos modos de interação no aplicativo, designando a cada usuário a possibilidade de observar aqueles que segue e de ser observado por aqueles que te seguem. Seguir alguém é querer ver o que essa pessoa está fazendo, com quem ela está andando, por onde ela circula, saber pelo quê ela se interessa. Inversamente, ser seguido é querer tornar visível aos seus espectadores aspectos de sua experiência cotidiana. Deste modo, as interações implicam uma constante troca intersubjetiva de atenção entre os usuários, em que ora são objeto do olhar do outro, ora atêm seu olhar ao outro.

Constituindo um território especializado para relações sociais mediadas por imagens, o Instagram oferece o palco para as subjetividades contemporâneas empreenderem a si mesmas através da apresentação de espetáculos cotidianos. Com suas ferramentas de edição estética e seus sistemas de avaliação quantitativos (número de seguidores, de curtidas, de visualizações e de comentários), as interações no aplicativo prestigiam e estimam a apresentação de performances, corpos, espaços e imagens otimizados. Deste modo, o Instagram lança seus usuários na conquista constante pela atenção do outro, na qual a mensuração das interações funciona como um sistema fino de avaliação[15] das imagens e das performances, gratificando ou punindo através dos números. No palco das telas da rede social, os usuários são ao mesmo tempo artistas e curadores de suas imagens, que seguem critérios estéticos e performáticos, para serem apresentadas em uma exposição (aqui, também no sentido museológico) de si otimizada. Susceptíveis a edições e modulações específicas, essas exposições de si apresentam variados empreendimentos pessoais e/ou profissionais, sejam dos momentos gloriosos ou das situações mais banais, prosaicas e triviais.

Além disso, no Instagram, junto aos modelos hierárquicos de monitoramento corporativo convivem formas de vigilância laterais[16], isto é, aquelas que os usuários exercem uns sobre os outros. Assim, ao consumirem os espetáculos cotidianos uns dos outros, os usuários exercitam também um olhar vigilante não hierárquico através de práticas conhecidas como fuxicar e stalkear. Nessa lógica, a vigilância não somente distribui-se em circuitos de prazer, mas se torna uma prática em si mesma prazerosa. Esses diferentes níveis de modulação da vigilância integram-se tanto ao exercício do controle que a empresa exerce sobre seus usuários quanto aos hábitos dos próprios usuários controlarem a si mesmos e aos outros. Deste modo, vigiar e ser vigiado constitui uma dinâmica central nas formas de relação em tecnologias como o Instagram, que assumem diversas disposições e simetrias de olhar.

A especificidade do Instagram reside, portanto, em acentuar os modos de ser supervisuais e hipervisíveis contemporâneos, a partir do entrecruzamento de microespetáculos e microvigilâncias do dia a dia. À vista disso, a instagramização da vida é o processo que intensifica a distribuição de vigilâncias e a integração de espetáculos, no qual é imprescindível tornar cada vez mais visíveis nossas experiências através da produção, estilização e consumo de imagens no aplicativo, conferindo à visibilidade o parâmetro valorativo de reconhecimento social e profissional. Trata-se de buscar uma visibilidade que é cuidadosamente selecionada, produzida, enquadrada e editada a partir de critérios de uma cultura empreendedora que tomam a otimização como horizonte. Porém, é importante sublinhar que não se trata de encenar uma ficção nem de simular o que não se é, mas sim de produzir a si mesmo no ato de se fazer visível ao olhar do outro de modos mais ou menos ensaiados, posados ou coreografados.

E essa curadoria do visível não aparece apenas nas imagens presentes na rede social, mas transborda aos modos de organizar os espaços por onde circulamos e habitamos, que passam a estar pautados pela iminência de serem registrados e compartilhados no aplicativo. Como efeito disso, a instagramização dos espaços físicos, públicos e privados, dos objetos, das formas de circulação na cidade e de experiências envolve reordená-los e editá-los para que sejam visíveis, registráveis e publicáveis. Compondo álbuns de fotos e vídeos e agregando informações às imagens, o aplicativo permite também que espaços, objetos e experiências tornem-se mais facilmente buscáveis e rememoráveis.

Assim, a instagramização da vida tem como efeito associar nosso olhar, nosso tempo e nosso modo de circulação pelo espaço à imediata presença no aplicativo. Capturando cada vez mais nosso tempo e nossa atenção, este dispositivo modula nossos modos de ver e ser visto, bem como a experiência do corpo no espaço. Em um espaço majoritariamente dedicado ao aspecto visual, um dos grandes sucessos deste aplicativo é ter conseguido associar o gesto de registrar uma imagem ao compartilhamento imediato em sua plataforma.

[1] Tradução nossa: “You make Instagram a place to discover the wonder in the world. Every photo and video — from the littlest things to the most epic — opens a window for people to broaden their experiences and connect in new ways”. Disponível em: <https://instagram-press.com/blog/2016/05/11/a-new-look-for-instagram/> Acesso em: 17.03.17.

[1]Disponível em: <https://www.medianochesf.com/> Acesso em: 20.01.18.

[2]Disponível em: <https://www.theverge.com/2017/7/20/16000552/instagram-restaurant-interior-design-photo-friendly-media-noche > Acesso em: 20.01.18.

[3]Disponível em: <https://www.theverge.com/2017/7/20/16000552/instagram-restaurant-interior-design-photo-friendly-media-noche > Acesso em: 20.01.18.

[4]Disponível em: < http://www.bellotasf.com/about/ >Acesso em: 20.01.18.

[5]Disponível em: <http://www.grubstreet.com/2017/04/how-to-make-a-restaurant-go-viral.html> Acesso em: 20.01.18.

[6]Disponível em: <https://www.timeout.com/newyork/bars/the-winners-of-the-2016-time-out-new-york-bar-awards> Acesso em: 20.01.18.

[7]Disponível em: <http://www.latimes.com/entertainment/arts/la-et-cm-museum-selfies-20150608-story.html > Acesso em: 20.01.18.

[8] Em 2013, eleita a palavra daquele ano, o termo selfie foi incorporado ao Oxford Dictionaries Online com a seguinte definição: “uma fotografia que alguém tira de si mesmo, tipicamente tirada com smartphone ou webcam e compartilhada via redes sociais”. Disponível em: <https://en.oxforddictionaries.com/definition/selfie> Acesso em: 06.01.18.

[9]Disponível em: <https://artsbma.org/art-on-the-rocks-is-instagram-gold/ >Acesso em: 20.01.18.

[10]Disponível em: <https://www.timeout.com/hong-kong/things-to-do/best-places-to-instagram-in-hong-kong > Acesso em: 20.01.18.

[11] Disponível em: <https://www.smithsonianmag.com/innovation/how-instagram-changing-way-we-design-cultural-spaces-180967071/ > Acesso em: 20.01.18.

[12] MACKIE, B. Is Instagram changing the way we design the world? The Guardian, 12 de jul. de 2018. Life and Style. Disponível em: < https://www.theguardian.com/lifeandstyle/2018/jul/12/ready-for-your-selfie-why-public-spaces-are-being-insta-designed?utm_source=meio&utm_medium=email > Acesso em 14:07.18.

[13] MANOVICH, L. Instagram and the contemporary image, 2017. Disponível em: < http://manovich.net/index.php/projects/instagram-and-contemporary-image.> Acesso em: 29:09.17.

[14] Tradução nossa: “This single platform medium is remarkable development in the history of modern media.” (Ibid., p. 11).

[15] FERRAZ, M. C. F. Mutações da subjetividade contemporânea: performance e avaliação. Caderno de Psicanálise – CPRJ, Rio de Janeiro, v.36, n. 30, p. 31-41, jan/jun, 2014.

[16] ANDREJEVIC, Mark. The discipline of watching: detection, risk, and lateral surveillance. Critical Studies in Media Communication, Vol 23, No 5, p.391-407, 2006.