#Dobras 18 // Aquilo que se perdeu com o Museu Nacional*

Por Orlando Calheiros**

 

O ato do monumento não é a memória, mas a fabulação. Gilles Deleuze e Félix Guattari, em O que é a filosofia?

 

Eu tinha lá meus sete, oito anos, talvez, mas ainda conservo algumas imagens vívidas da minha primeira visita ao Museu – é preciso dizer que para a maioria dos cariocas ele sempre foi e sempre será simplesmente o Museu, nunca foi preciso lhe conceder qualquer “sobrenome” para diferenciá-lo dos demais. Enfim, lembro bem do fascínio que algumas peças da exposição permanente me causaram. Especialmente duas. Lembro claramente de como a minha atenção fora completamente abduzida por uma das múmias: aos olhos do meu eu-infantil, a simples ideia de que pudesse existir algo como uma múmia já era assombrosa; poder ver uma de tão perto, separado apenas por um vidro, era praticamente um evento sobrenatural. Mas isso não é tudo, conservo a memória do entusiasmo que senti quando conheci o Bendegó. Aos que não estão familiarizados, trata-se do maior siderito (meteorito composto de ligas de níquel e ferro) encontrado em território nacional. A ideia de poder tocar, ainda que sorrateiramente, naquilo que imaginava ser um “pedaço de um outro planeta”, me deixou encantado ao ponto de passar os anos seguintes respondendo esperançosamente “geólogo” sempre que me perguntavam sobre o que eu queria ser quando crescer.

Mas o que a minha história tem de especial? Absolutamente nada, e é justamente isso que a torna relevante para o debate. Minha jornada pueril nada tem de excepcional, é apenas de mais uma entre muitas, entre inúmeras. Como eu, outras tantas crianças (e adultos) tiveram o seu primeiro contato direto com a ciência nos salões do Museu. Uma experiência potente, verdadeiramente capaz de ampliar os limites do mundo em que viviam, tornando-as capazes de efetivamente imaginar, de sonhar com outros mundos. E isso, sabemos, não é pouca coisa. Eu mesmo, ao fitar aquela múmia, passei a sonhar com um passado longínquo, muito além daquele que até então imaginava ser possível; sonhar com um outro tempo, cujo horizonte não era marcado por prédios, mas por pirâmides. Um mundo onde os corpos podiam ser preparados para resistir ao tempo. E isso em apenas uma sala, na outra, ao me deparar com Bendegó, passei a sonhar com aquilo que existia para além dos limites da abóbada celeste, literalmente, os mundos que existiam para além do meu próprio mundo.

Reitero, não há nada de especial na minha história. Criar, nutrir estes poderes imaginativos em seus visitantes é, justamente, uma das maiores potências de um museu. Sua verdadeira missão. Algo que, independente de qualquer coisa, já justificaria a sua existência – em tempos tão sombrios, este me parece um movimento necessário. Enfim, inspirar sonhos foi um papel que o Museu não apenas cumpriu de forma exemplar ao longo de seus duzentos anos de existência, como o fez de uma forma muito singular. A instituição, por um fortuito acidente histórico, terminou localizada nos limites do subúrbio carioca, em uma área abandonada pelo poder público. Algo incomum para uma cidade como o Rio de Janeiro, onde os aparelhos culturais estão concentrados nas áreas mais abastadas. Não por coincidência, o Museu representava um dos poucos lugares onde os jovens mais pobres podiam ir para alimentar suas capacidades fabulatórias, onde podiam ampliar os limites do seu mundo – e dentre estes eu orgulhosamente me incluo.

E eles, nós, não estávamos sozinhos. De fato, antropólogos, paleontólogos, biólogos, museólogos, geólogos… etc, pesquisadores de todos os tipos, eles também iam ao local, trabalhavam arduamente nas coleções, pesquisavam, assistiam e davam aulas, com um intuito semelhante: cultivar seus poderes imaginativos. Veja bem, leitor, não estou dizendo que a atividade científica “falseia a realidade”. Muito pelo contrário, apenas sublinho uma qualidade, uma potência que qualquer cientista, creio, gostaria de ter associado ao seu trabalho: a capacidade de ampliar os limites do seu – e portanto do nosso – mundo, transformando-o.

Tomemos de exemplo a história de um dos artefatos mais famosos do Museu: o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas. Este, como é notório, esteve no centro de uma verdadeira mudança no paradigma científico. Com efeito, se até então imaginávamos as Américas como colonizadas por um único fluxo migratório ocorrido no Pleitoceno – vindo do Estreito de Bering –, hoje, muito por conta do crânio de Luzia, somos capazes de imaginar um cenário distinto, somos capazes de imaginar a existência de um passado remoto composto por fluxos migratórios diversos. Trata-se efetivamente de uma reconfiguração completa na ordem das coisas, de uma transformação radical na forma como pensamos e habitamos o mundo no presente. E isso, sabemos, implica na forma como nos preparamos para o futuro.

E este é apenas um “pequeno” exemplo do que se “guardava” pelos corredores do Museu. Poderíamos falar de tantos outros, das inúmeras pesquisas que ali eram desenvolvidas diariamente, cada qual promovendo pequenas transformações, cada qual contribuindo para a expansão da nossa capacidade de imaginar outros mundo. Expandindo o próprio mundo, a realidade, portanto. Uma lista completa seria propriamente impossível. Afinal, estamos falando aqui de 200 anos de história e pesquisas que abordavam temas tão diversos quanto “relações de gênero em uma favela carioca” e “análises sedimentares de sistemas marinhos”. O que nos importa, creio, é sublinhar que, com a destruição completa do Museu e de seu acervo, perdemos toda uma miríade de descobertas que poderiam ampliar os limites do nosso mundo; descobertas que nos levariam a experienciar outros mundos, portanto. Mundos que, por conta do descaso, nunca seremos capazes de sequer imaginar.

 

*Texto publicado originalmente no site Ciência na Rua.

**Orlando Calheiros é doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional

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Imagem de capa: Fernando Frazão/ABr

Imagem no corpo do texto: Marcelo Sayão (EFE)