#Dobras 29 // As novas roupas do capitalismo | Parte 2

Esta é a segunda parte da tradução, feita por Paulo Faltay, da resenha de Evgeny Morozov sobre o livro The Age of Surveillance Capitalism, de Shoshana Zuboff.

Para acessar a primeira parte, clique aqui.

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IX.

Depois desse longo prelúdio de oito capítulos – essa resenha pretende rivalizar em prolixidade com o livro – é hora de examinar até que ponto a teoria do capitalismo de vigilância de Zuboff se sustenta enquanto uma teoria. Uma das vantagens não declaradas de operar dentro da estrutura chandleriana é que, se Zuboff tiver sucesso na tarefa que ela definiu tacitamente para si mesma, seu livro produzirá um forte modelo analítico que embasará todas as interpretações subseqüentes da economia digital. Afinal de contas, foi isso que aconteceu com Chandler: o seu arcabouço teórico tornou-se o modelo dominante, ainda que ocasionalmente contestado, para pensar a era da produção em massa.

 

Zuboff, no entanto, não afirma explicitamente que ela está apresentando um modelo analítico de tamanha ambição intelectual; e ela mal menciona o próprio Chandler. Na verdade, ela sempre deixa a porta aberta para uma interpretação diferente: que ela quer apenas ilustrar a destrutiva batalha travada por empresas como o Google e o Facebook pelos dados digitais globais, tendo a autonomia individual do consumidor como um dos efeitos colaterais dessa disputa. Uma explicação detalhada dos movimentos e considerações táticas que moldam essa batalha a leva a introduzir um fenômeno chamado capitalismo de vigilância, mas as ambições teóricas desse conceito, sob a interpretação atual, são muito modestas.

 

Por uma questão de clareza, vamos chamar esta interpretação de Tese I. Oferecendo nada mais do que uma descrição, Tese I insinua muito pouco sobre a durabilidade, a importância geral e o impacto do capitalismo de vigilância sobre o próprio capitalismo. Definitivamente há muitos efeitos sociais negativos, mas a Tese I não os considera piores que os modelos alternativos.

 

Zuboff sinaliza diversas vezes, como uma forma de eximir-se, que ilustrar a Tese I – um conjunto de observações, não uma hipótese – é tudo o que ela pretende fazer. Exatamente quando o capitalismo de vigilância parece revolucionário – por que mais chamar isso de “nova ordem econômica” que afeta de garrafas de vodka até termômetros retais? – Zuboff admite que as leis regulares do capitalismo permanecem, apenas complementadas agora pelos novos imperativos focados em dados digitais. Lido como uma exposição meticulosa da Tese I, o livro é um mistério: por que tanto esforço para revelar o dano ocasionados pelo Google e pelo Facebook – nenhuma notícia chocante em 2019 – sem tirar conclusões mais amplas e mais ousadas?

 

Assim, o argumento no livro de Zuboff, que poderíamos chamar a Tese II, talvez seja uma pista melhor. Primeiro, é uma hipótese apropriada: postula que o capitalismo de vigilância não apenas produz efeitos que são inequivocamente piores que os dos regimes digitais alternativos, mas que também está se tornando a forma hegemônica do capitalismo. As leis mais antigas do capitalismo se aplicam, mas apenas formalmente: classe, capital e meios de produção têm pouco valor analítico. Para se adaptar ao ambiente em rápida mudança, os capitalistas de hoje devem seguir os imperativos da nova lógica baseada na vigilância; eles devem se preocupar com os meios de modificação comportamental, não com os meios de produção.

 

Tese II tem implicações inovadoras. Ela identifica a extração de dados e modificação de comportamento não como conseqüências ocasionais da competição capitalista, mas como as causas primordiais que impulsionam a emergência da nova ordem econômica, enquanto seus imperativos, por sua vez, superam os do próprio capitalismo. A tese II pressupõe uma revolução copernicana em como entendemos a economia digital. Mas esta revolução é baseada em fundamentos bastante delicados, pois Zuboff deve provar, não apenas postular, a inversão subjacente da causalidade. Se ela falhar, voltamos para a Tese I: os dados estão sendo apropriados – extensivamente, racionalmente, perversamente – e os esforços para monetizá-los ocasionalmente têm efeitos sociais nocivos – um argumento que certamente é correto, mas um tanto banal.

 

A prova crítica e decisiva para a Tese II nunca chega, entretanto – dificilmente uma surpresa para alguém familiarizado com a teoria de negócios chandleriana. Em vez disso, a simplicidade da Tese I e a ambição da Tese II combinam-se para produzir a tautologia da Tese III, igualmente conhecida pelos aficionados de Chandler: os capitalistas de vigilância participam do capitalismo de vigilância porque é isso que os imperativos do capitalismo de vigilância exigem. Zuboff faz uso regular dessa tese auxiliar, pois ajuda a postular o que ela precisa provar.

 

A tese III, no entanto, não é uma hipótese a ser provada, mas um axioma impossível de ser refutado: qualquer caso que não se enquadre na teoria pode ser descartado como estando fora do capitalismo de vigilância como a teoria o define e, portanto, não estando sujeito aos imperativos dela. O que pode ser refutada é a Tese II, pois ela postula mecanismos causais efetivos.

 

Antes que você, cara pessoa leitora, fique enjoada, suspeitando, não incorretamente, que um exercício enfadonho e cruel da filosofia analítica está prestes a se desdobrar, sejamos claros sobre sua racionalidade: sem uma clara confirmação da tese de Zuboff em linguagem lúcida e verificável, sempre correremos o risco de afundar nos pântanos tautológicos da Tese III. Com essa ressalva, podemos prosseguir com nosso próprio e reduzido Tractatus Logico-Philosophicus.

 

Tese II é um conjunto de várias proposições:

i) a civilização da informação poderia escolher entre o capitalismo de vigilância e o advocacy-oriented capitalism;

ii) ambos se utilizam da extração de dados: um para obter um excedente comportamental, outro para melhorar os serviços;

iii) certas características da civilização da informação tornaram hegemônico o capitalismo de vigilância;

iv) como ele se torna hegemônico, o mesmo acontece com seus imperativos;

v) em seus efeitos sociais, o capitalismo de vigilância é pior que suas alternativas.

 

A evidência fornecida para provar cada uma das afirmações da Tese II acima é freqüentemente incompleta e não exclui explicações alternativas. Em tais casos, a Tese III preenche as lacunas. Vamos abordar cada uma dessas proposições em seus próprios termos.

 

X.

Proposição I parece inatacável; Zuboff pode escolher como apresentar sua teoria do jeito que ela quiser (como ela já fez com a informatização e automação, por exemplo). Poderíamos perguntar, no entanto, por que a “civilização da informação” enfrenta uma escolha apenas entre dois capitalismos. Isso foi perdoável nas especulações de Francis Fukuyama por volta de 1989; 2019 requer, talvez, mais nuances. Isso, sem dúvida, tem a ver com o papel sacrossanto atribuido ao consumo na teoria geral de Zuboff. Voltaremos a isso mais tarde.

 

A proposição II é crucial, pois postula relações causais entre a extração de dados e os imperativos das duas ordens econômicas: na civilização da informação, os dados são coletados porque produzem o excedente comportamental (dando-nos o capitalismo de vigilância) ou porque melhoram os serviços (dando-nos, o advocacy-oriented capitalism). A proposta pode ser válida para casos ideais, como o Google e a Apple. Mas e os casos limítrofes? Quão bem o foco nos usos dos dados de usuários explica a dinâmica do “capitalismo da informação” em si?

 

Considere a Amazon. Os leitores eletrônicos do Kindle coletam dados constantemente – livros lidos, páginas viradas, parágrafos sublinhados – o que ajuda a Amazon a decidir quais livros posteriormente publicar. Isso se encaixa no resumo do advocacy-oriented capitalism: os consumidores acabam eventualmente obtendo livros mais relevantes. A Amazon, no entanto, também faz modelos mais baratos do Kindle que contêm publicidade. Se a publicidade é personalizada, estamos em pleno capitalismo de vigilância. Se for genérico, estamos nas terras de ninguém do capitalismo digital, presos entre o advocacy-oriented e vigilância. Se o capitalismo de vigilância é, de fato, diagnosticado, então um duplo movimento de algum tipo deve surgir e garantir que pagamos o preço total por esses leitores eletrônicos; caso contrário, nossa autonomia está ameaçada.

 

Observe que essa prescrição normativa, bem como a explicação de por que a publicidade personalizada existe, são fornecidas pelos poderes miraculosamente persuasivos da Tese III. Mas nós não simplesmente postulamos que os dados melhoram os serviços ou que modificam o comportamento ao invés de mostrar que esses resultados ocorrem? E se esses anúncios do Kindle, personalizados ou não, estiverem lá apenas para permitir que a Amazon atraia mais consumidores? Afinal de contas, o fato de que os leviatãs da tecnologia coletam dados e veiculam publicidade também pode ser explicado por explicações diferentes. E se a Amazon quiser apenas inundar o mercado com dispositivos mais baratos, garantindo sua posição no mercado? Por que “monopolizar” a extração de dados é mais importante do que monopolizar o próprio mercado?

 

Considere, da mesma forma, a expansão da Amazon em nossas casas. A Amazon pode de fato estar colhendo nossas conversas através de dispositivos vinculados a Alexa para eventualmente modificar nosso comportamento; além disso, pode até estar modificando nosso comportamento para extrair mais dados. Mas também é possível que a Amazon simplesmente deseje melhorar sua capacidade de reconhecimento de voz, que por sua vez gera receita por meio da Amazon Web Services, a sua principal fonte de lucros. A Amazon, como a maioria das grandes empresas de tecnologia, oculta que realiza a extração de dados. Mas a invisibilidade de suas operações prova, no máximo, que eles são inescrupulosos. A definição de capitalismo de vigilância de Zuboff depende do excedente comportamental ser usado para modificar o comportamento, e não se a extração de dados é visível. Os processos de extração de dados inerentes à alternativa positiva de Zuboff (quando os dados entram no ciclo de reinvestimento comportamental) são, afinal, tão opacos quanto os mesmos processos sob o capitalismo de vigilância (quando os dados geram excedente comportamental).

 

Então, o que impulsiona a Amazon: a lucratividade e a sobrevivência, ou extração de dados e modificação de comportamento? A revolução copernicana de Zuboff diz que estes últimos objetivos predominam na empresa capitalista digital. “A Amazon está em busca de excedente comportamental”, escreve ela. “Isso explica por que a empresa se juntou à Apple e ao Google na disputa para projetar o painel do seu carro, costurando alianças com a Ford e a BMW”. Eis a mesma hipótese que provavelmente teria sido formulada antes da revolução copernicana de Zuboff: Amazon se juntou à Apple e ao Google na disputa para projetar o painel do seu carro, costurando alianças com a Ford e a BMW. Como resultado, está em busca de excedente comportamental”.

 

Por que a Amazon se juntaria à Apple e ao Google nessa empreitada é algo a ser investigado, não presumido. Para fazê-lo corretamente, talvez precisemos parar de nos concentrar nas operações dessas empresas voltadas ao consumidor e examinar como elas interagem com suas operações voltadas para os negócios e para governos. Uma vez que estes últimos não envolvem consumidores, eles raramente são invocados por Zuboff – mesmo que muitas vezes obtenham margens de lucro muito mais altas do que os braços publicitários dos gigantes da tecnologia.

 

De qualquer forma, Zuboff não precisa investigar por que a Amazon se juntaria à Apple (Apple?!) e ao Google nessa empreitada, já que a Tese III fornece todas as respostas. Assim, a busca por excedente comportamental torna-se a causa, e não o efeito, daquilo que as empresas de tecnologia fazem. E apesar de Zuboff admitir que os imperativos mais amplos da competição de mercado moldam suas disputas, essas empresas fazem seu trabalho somente depois que o objetivo da disputa – coleta de dados – foi estabelecido, de fora, pela Tese III. O capitalismo de vigilância é, sem surpresa, mais “vigilância” do que “capitalismo”.

 

O critério pelo qual a Proposição II classifica as empresas – elas extraem dados para modificar o comportamento ou para melhorar os serviços? – também produz alguns resultados estranhos. Considere o Uber, que mal é mencionado no livro, e talvez por um bom motivo. Não dependente da receita de publicidade, o Uber tem incentivos diferentes do que o Google ou o Facebook. Pratica o advocacy-oriented capitalism? Seus executivos diriam: as táticas agressivas da Uber garantem que os passageiros obtenham serviços melhores e mais baratos. Isso atende à definição de Zuboff: “quando uma empresa coleta dados comportamentais com permissão e apenas como meio de melhoria de produtos ou serviços, está praticando o capitalismo, mas não o capitalismo de vigilância”.

 

O Uber, no entanto, também faz muitas outras coisas reprováveis com dados digitais. Considere o escândalo Greyball descoberto pelo New York Times em 2017. O Greyball era o sistema interno de espionagem do Uber que tornava seus veículos invisíveis para usuários que se encontravam perto de prédios do governo, enquanto inspecionam os dados destes usuários, como informações de cartão de crédito, que poderiam sugerir que eles eram, na verdade, funcionários estatais, como policiais, se passando por passageiros. Aqui, o objetivo da extração de dados, embora trapaceiro e invisível, não era nem a modificação do comportamento do usuário nem a melhoria do serviço. Pelo contrário, era a criação de uma subclasse permanente de não-usuários, com o objetivo de escapar de regulações e manter os custos baixos.

 

Há uma teoria mais geral e mais simples para explicar a extração de dados e a modificação de comportamento que Zuboff ignora, presa como está dentro do modelo análitco chandleriano, com sua necessidade ardente de encontrar um sucessor para o capitalismo gerencial. Essa teoria mais simples é assim: as empresas de tecnologia, como todas as empresas, são movidas pela necessidade de garantir a lucratividade a longo prazo. Conseguem isso ultrapassando seus concorrentes por meio de crescimento mais rápido, externalizando os custos de suas operações e aproveitando seu poder político. A extração de dados e a modificação comportamental que ela permite – claramente mais importantes para empresas em setores como a publicidade on-line – surgem, onde ocorrem, nesse contexto.

 

Em outras palavras, eles são apenas um efeito local da causa global. É essa a causa – a necessidade de garantir a lucratividade a longo prazo em face da concorrência – que impulsiona sua estratégia de extração de dados. Essa explicação parcimoniosa serve para explicar casos como do Google e do Uber, sem qualquer necessidade de postular novos “regimes” híbridos, como, digamos, um trapaceiro “advocacy-oriented capitalism”. Na verdade, o regime é apenas um – capitalismo – e usá-lo como uma categoria analítica ajuda a evitar numerosas deficiências que surgem com abordagens como do capitalismo gerencial e do capitalismo de vigilância.

 

As recentes revelações sobre as controversas práticas de compartilhamento de dados do Facebook confirmam que os imperativos do “capitalismo de vigilância”, se existirem, são apenas secundários aos do próprio capitalismo. A empresa, preocupada com o crescimento, lidava com dados como um ativo estratégico: onde os imperativos de expansão sugeriam que ela deveria compartilhar esses dados com outras empresas de tecnologia, o Facebook fez isso sem hesitação, dando acesso à Microsoft, à Amazon, ao Yahoo e até mesmo à Apple (embora a Apple tenha negado seu envolvimento). Sob o capitalismo, quem consegue se apropriar do excedente comportamental é de importância secundária; o que importa é quem consegue se apropriar do lucro real – e permanecer na posição de fazê-lo no longo prazo.

 

XI.

A proposição III, que a atual conjuntura favorece o capitalismo de vigilância sobre o advocacy-oriented capitalism, parece plausível. Como observei antes, Zuboff evoca “afinidades seletivas” entre os imperativos do capitalismo de vigilância e aqueles que moldaram as operações militares pós-11 de setembro e as iniciativas de desregulamentação neoliberais. Isso, no entanto, apenas explica por que o capitalismo de vigilância prosperou, não porque prosperou às custas do advocacy-oriented capitalism. Para fazer isso, precisaríamos mostrar que as afinidades seletivas propícias ao capitalismo de vigilância não eram simultaneamente propícias ao advocacy-oriented capitalism.

 

Isso é verdade? A Apple, dificilmente uma vítima do neoliberalismo, capitaliza o seu dinheiro via Braeburn Capital, um fundo de investimentos gigante. A Amazon, com seus 600 mil funcionários, é uma grande beneficiária de leis trabalhistas mais fracas. A Amazon lista a CIA como um cliente importante. A Siri da Apple vem do Stanford Research Institute, um beneficiário dos investimentos de defesa americano. Tais afinidades seletivas se tornam uma grande rede de atores após uma investigação mais profunda. Mas é aí que a Tese III faz sua mágica novamente, alterando a proposição original: o capitalismo de vigilância provou ser hegemônico em ambientes onde se mostrou hegemônico.

 

Entretanto, mesmo essa hegemonia é postulada, não comprovada. A dinâmica da concorrência não faria o Google e o Facebook seguirem o caminho da Amazon e da Microsoft, vendendo serviços como computação em nuvem e inteligência artificial? Como tais projetos de computação prometem grandes margens de lucro, e a publicidade implica cada vez mais custos mais elevados, uma teoria que considera os capitalistas como perseguindo a lucratividade (e não a eficiência ou o excendente de comportamento) sugere isso. Não podem esses serviços ultrapassar a publicidade e a modificação do comportamento como modelo primário da economia digital? É claro que eles podem, mas não é um problema para Zuboff, já que a Tese III permite que ela reinsira esta dinâmica na busca pelo excedente comportamental. Paradoxalmente, até mesmo o triunfo de outras lógicas é apenas mais uma confirmação de que o capitalismo de vigilância ainda é supremo.

 

Algumas deficiências da Proposta IV – estipulando que os imperativos do capitalismo de vigilância dominam os do próprio capitalismo – já foram discutidas. Lembre-se de que a Tese II explica a estratégia dos capitalistas de vigilância por seu imperativo primordial de monopolizar o excedente comportamental. Desde 2001, a Alphabet, empresa controladora do Google, adquiriu mais de 220 empresas; o Facebook mais de setenta. A busca por dados motivou essas aquisições? Ou algumas delas, incluindo a aquisição do Instagram pelo Facebook, foram impulsionadas por uma busca pelo poder de mercado? Simplesmente olhando para o que aconteceu com os dados das duas empresas que se fundem, não podemos responder a essa pergunta. A tese III, no entanto, pode.

 

Vamos voltar para o Uber. Ele extrai dados e devemos nos preocupar com isso? Certamente. Mas devemos aceitar a revolução copernicana de Zuboff e reimaginar a economia digital colocando a extração de dados em seu centro?

 

No caso de Uber, a narrativa pré-copernicana explica muito mais. Em 2017, o Uber perdeu 4,5 bilhões de doláres; sua perda esperada para 2018 é de magnitude similar. A empresa permanece flutuando em um mar de dívidas, aguardando uma oferta pública de venda (OPV) que pode injetar novos fundos de investidores externos, raspando o caixa da Arábia Saudita e do SoftBank do Japão – este último com dívidas de mais de 150 bilhões de dólares. Por que uma empresa tão endividada investiria em uma empresa deficitária? Por que o financiamento da dívida da SoftBank foi tão barato? E por que a Arábia Saudita despeja dinheiro em empreendimentos tecnológicos? As respostas a essas perguntas não esclarecem o que o Uber faz com os dados, mas revelam o principal imperativo da empresa: liquidar a concorrência. Sem dúvida, este objetivo principal eventualmente envolve a extração de dados. Mas o inverso não se sustenta.

 

Ver o capitalismo de vigilância como nosso novo Leviatã invisível é perder como o poder, sob o capitalismo, vem operando há vários séculos  

 

Devemos, claro, balancear explicações micro e macro. Mas a tentativa da própria Zuboff é sempre mediada pela lógica interna da Tese III. “A tecnologia é uma expressão de outros interesses”, escreve ela. “Nos tempos modernos, isso significa os interesses do capital e, no nosso tempo, é o capital de vigilância que comanda o meio digital e direciona nossa trajetória para o futuro.” Essa conclusão de que o capital de vigilância, e não o velho capital, dita o desenvolvimento da tecnologia hoje é meramente um postulado. As categorias anteriores não-chandlerianas perdem sua importância analítica por decreto. As provas de sua irrelevância são verdadeiras: a explicação de Zuboff começou presumindo que elas não importam. Foi também o que ela fez em seu primeiro livro, em que o foco escolhido nos conflitos entre gerentes e trabalhadores não deixou espaço para a análise de classes. Naquela época, porém, Zuboff não reuniu coragem para alegar que suas próprias escolhas analíticas peculiares invalidaram os métodos analíticos anteriores.

 

Essa visão estreita é comum em grande parte da teoria dos negócios de Chandler; seus praticantes, além disso, dificilmente mantêm isso em segredo. O próprio Chandler foi bastante explícito sobre seu foco nas páginas iniciais de The Visible Hand, “Eu lido com amplos desenvolvimentos políticos, demográficos e sociais apenas quando eles interferem diretamente nas maneiras pelas quais a empresa realiza os processos de produção e distribuição”. Nós podemos tolerar, com um esforço considerável, um foco tão estreito na história dos negócios, mesmo porque grande parte dessa hagiografia é consumida pelas próprias empresas. Quando, no entanto, ela se torna o fundamento de uma teoria, como a de Chandler foi para as teorias subsequentes da empresa e a de Zuboff pode ser para as teorias da empresa digital, corremos o risco de substituir o solipsismo corporativo por uma visão teórica.

 

Isso nos deixa com a Proposição V: a ideia de que os danos do capitalismo de vigilância são piores que os das lógicas alternativas. A essa altura, estamos torcendo para que essa proposição se sustente: por que gastar tantas páginas sobre o que Zuboff chama de “poder instrumental”, se é apenas um dos muitos poderes no capitalismo digital e, possivelmente, nem o pior tipo? Infelizmente, Zuboff diversifica sua aposta, admitindo que as “práticas monopolistas e anticompetitivas no caso da Amazon” e “preços, estratégias fiscais e políticas de emprego [no caso da] Apple” também são problemáticas.

 

Na ausência de um modelo análitico para comparar os danos do capitalismo de vigilância com os de suas alternativas, há apenas uma solução: pedir ao leitor que assuma, seguindo a proposição III, que por ser hegemônico os problemas do capitalismo de vigilância merecem mais atenção. Se não for, por que se preocupar mais com os consumidores em casas inteligentes administradas pelo Alexa do que os trabalhadores dos armazéns inteligentes neotayloristas da Amazon?

 

Na falta de uma explicação de como o poder anônimo sob o capitalismo opera, Zuboff acaba contrastando o “poder instrumental” do capitalismo de vigilância com o “poder totalitário” das ditaduras. Se “o totalitarismo operou através dos meios de violência (…) o poder instrumental opera através dos meios de modificação comportamental” e “não tem interesse em nossas almas ou em qualquer princípio em instruir”.

 

Talvez, mas e quanto à “coerção muda das relações econômicas” de Marx? Não representou poder algum? Aqui está Friedrich Hayek, o anti-Marx, escrevendo nos anos 70: “A competição produz (…) um tipo de coerção impessoal que torna necessário que numerosos indivíduos ajustem seu modo de vida de uma maneira que nenhuma instrução ou ordem deliberada poderia trazer”. Hayek não está se referindo aqui à modificação comportamental, empreendida por forças impessoais do capitalismo sem nenhum tipo de injunções totalitárias? Ver o capitalismo de vigilância como nosso novo Leviatã invisível é perder como o poder, sob o capitalismo, vem operando há vários séculos: o Leviatã invisível está conosco há algum tempo.

 

XII.

As deficiências mais nítidas de The Age of Surveillance Capitalism surgem na relação que ele estabelece entre o capitalismo e o capitalismo de vigilância – bem como na maneira pela qual o livro prioriza mais os problemas dessa nova forma de mercado do que os do próprio capitalismo. Vamos nos aprofundar um pouco mais sobre como essas dinâmicas supostamente operam.

 

Por que o capitalismo de vigilância é capitalista? Porque, parece, há uma apropriação privada do excedente comportamental. Isto tem alguma semelhança com a noção de “trabalho excedente” de Marx – a ideia de que, devido à propriedade dos meios de produção, os capitalistas fazem com que os trabalhadores cedam para eles parte do seu trabalho de graça. Mas Zuboff também afirma que o comportamento e a experiência humana são matéria-prima, não trabalho, sem explicar as diferenças. Existem, é claro, maneiras novas e empolgantes de expandir a teoria de valor dos marxistas, incorporando outros fatores além do trabalho (por exemplo, a natureza). Zuboff, no entanto, não segue esse caminho. Sua própria teoria do valor ainda é a usada na The Support Economy: todo valor é criado por consumidores emancipados.

 

Mas as dúvidas permanecem. O advocacy-oriented capitalism, a alternativa preferida de Zuboff, é tão capitalista quanto o de vigilância; ele também se distingue pela apropriação privada do feedback do usuário, mesmo que as empresas afirmem que buscam essas apropriações sob a rúbrica de melhoria do serviço. Por que, então, o advocacy-oriented capitalism é superior ao capitalismo de vigilância? Em parte porque, na ausência de publicidade, considera-se livre dos desequilíbrios de poder que decorrem das trocas desiguais, fazendo da relação entre empresas e consumidores uma de “reciprocidade”. Sob o capitalismo de vigilância, os consumidores ficam subjugados a imperativos que não são os deles, tendo sua autonomia prejudicada e assim por diante.

 

É um argumento estranho de se fazer. Argumentar que a ausência de excedente comportamental significa que a relação entre a Apple e seus clientes é livre da dinâmica de trocas desiguais é ignorar todas as maneiras pelas quais a Apple regularmente exerce controle sobre seus clientes, até mesmo os impedindo de usar serviços de reparo de terceiros, por exemplo. Esse corriqueiro modelo de domínio de mercado também não prejudica a autonomia? No entanto, ao definir que as empresas “advocacy-oriented” são definidas apenas pela sua recusa em se apropriarem do excedente comportamental, essas manifestações frequentes de poder corporativo não são detectadas pela teoria de Zuboff.

 

Note que todo o entendimento do capitalismo de Zuboff é sustentado por sua compreensão sobre o consumo. Retire o consumidor, e não há capitalismo de vigilância, assim como não há “capitalismo” sem “trabalho” em Marx. Isso significa, entre outras coisas, que o excedente comportamental (e, portanto, o capitalismo de vigilância) só pode existir se houver um sujeito humano autônomo cuja vontade possa ser modificada pelo comércio. Assim, um fundo de investimento que implanta satélites para pesquisar o movimento de veículos perto de supermercados ou de armazéns – uma prática comum para avaliar o nível da atividade comercial de um local – está fora do capitalismo de vigilância, ao menos entendido dessa forma estrita.

 

Assim, grande parte dos procedimento de vigilância comercialmente lucrativos da atividade social e econômica não estão diretamente ligados à modificação de comportamento. Lembre-se de que o ciclo de reinvestimento comportamental se transforma em superávit comportamental apenas quando algum limite objetivo do monitoramento do usuário, aquele necessário para melhorar o serviço, é excedido. A preocupação real de Zuboff, então, não é vigilância, mas a manipulação de comportamento que a segue – há trinta anos, sua preocupação não era a escrita do “texto eletrônico” em si, mas seu uso para dominar, não empoderar. Por que, então, falar de “capitalismo de vigilância” e não, digamos, “capitalismo de modificação de comportamento”, quando fica claro que este último é o verdadeiro objeto de preocupação de Zuboff?

 

Além de lamentar que emprega poucos trabalhadores, Zuboff não identifica as dinâmicas que afetam o capitalismo de vigilância a partir de suas lógicas internas. A ausência de tendências contrárias é estranha. Mesmo Marx, convencido do inevitável declínio do capitalismo, identificou algumas, como, por exemplo, que a automação reduz o excedente de trabalho a ser apropriado, empurrando a taxa de lucro para baixo, ao mesmo tempo em que essa tendência também ajuda a aumentar essa mesma taxa de lucro, barateando o custo de produção.

 

Os capitalistas de vigilância de Zuboff estão interessados ​​em nos transformar em uma massa cinzenta uniforme, como ela postula? Talvez, mas eles também parecem interessados ​​em nos manter diversificados e excêntricos. De que outra forma eles teriam como monetizar novos conteúdos virais? Segundo Zuboff, também parece que o capitalismo de vigilância prejudica a todos igualmente. E, no entanto, não estão os aposentados de Oslo, cujas pensões – através do fundo soberano da Noruega – investem nas ações de mercado dos capitalistas de vigilância, predispostos a gostar mais dessa dinâmica que os trabalhadores sem terra de São Paulo?

 

E quanto à relação entre as leis do capitalismo de vigilância e as do próprio capitalismo? Como sugeri anteriormente, Zuboff postula que o capitalismo de vigilância tem suas próprias dinâmicas, mas que as leis mais genéricas das dinâmicas do capitalismo também são válidas: as empresas competem, cortam custos, perseguem a lucratividade. Os marxistas também enfatizariam a centralidade da classe na distribuição do poder, a propriedade privada dos meios de produção e os efeitos sociais corrosivos da forma de mercadoria.

 

O advocacy-oriented capitalism, a alternativa preferida de Zuboff, é tão capitalista quanto o de vigilância

 

Ao descrever as principais características do capitalismo de vigilância, Zuboff insiste que esse regime se alimenta de mais do que apenas o trabalho, como os marxistas entendem, reconhecendo indiretamente a validade anterior de um modelo interpretativo marxista. Por que ela sentiu o desejo de fazê-lo é um mistério, pois imediatamente torna seu argumento vulnerável aos ataques do flanco mais radical. Ela escreve: “A luta por poder e controle na sociedade não está mais associada aos fatos ocultos da classe e sua relação com a produção, mas sim pelos fatos ocultos da modificação automatizada [sic] do comportamento”.

 

Muita coisa depende desse “não mais” – basicamente postula que a classe teve um grande poder explicativo uma vez, mas isso não acontece mais; em vez disso, devemos olhar para a modificação do comportamento. Além disso, sob o capitalismo de vigilância, “os meios de produção estão subordinados a um complexo novo meio de modificação comportamental”. Todas essas são afirmações ousadas e possuem grandes implicações políticas e teóricas. Sendo meramente postuladas, elas não recebem realmente a atenção que merecem, muito menos submetidas a testes empíricos.

 

Nós podemos, no entanto, tentar. Para Zuboff, o ciclo de negócios do Google começa com a aquisição de excedente comportamental, que, depois de passar pelos “meios de modificação comportamental”, é transformado em “produtos de previsão”; estes são eventualmente vendidos a clientes, como os anunciantes. Os meios convencionais de produção parecem irrelevantes para essa história: na melhor das hipóteses, ajuda a extrair o excedente comportamental dos usuários-consumidores, mas são os poderosos leilões de anúncios do Google que fazem a maior parte do trabalho. A narrativa de Zuboff, no entanto, é bastante parcial. A suposta irrelevância da produção é apenas a conseqüência natural do foco exclusivo no consumo, algo típico da profecia pós-fordista. Se tratarmos os consumidores como a principal fonte de valor, é lógico que perderemos de vista o valor produzido em outro lugar.

 

Os meios de produção por trás do mecanismo de pesquisa do Google incluem a indexação constantemente atualizada de “todas as informações do mundo”, baseada em trilhões de páginas previamente rastreadas que os usuários consultam em tempo real na busca por respostas a suas perguntas. A imensa utilidade e confiabilidade do indexador, por sua vez, gera alto tráfego, que então – mas só então – cria oportunidades de monetização via publicidade. A personalização dos resultados da pesquisa  possibilitada pela extração de dados do usuário e vinculada às consultas anteriores, à localização do usuário e outros tipos de dados, aumenta a utilidade do serviço. O excedente comportamental do Google, no entanto, certamente não é o único excedente que impulsiona seu balancete.

 

Para testar a afirmação de Zuboff de que os meios de produção estão agora subordinados aos meios de modificação comportamental, basta desativar o rastreador do Google e ver quanto tempo seu setor de publicidade irá durar. O que mantém o mecanismo de pesquisa? Bem, muitos engenheiros e cientistas da computação. Eles têm o excedente de trabalho deles apropriado? Talvez, mesmo que pareçam ocupados demais para perceber. Mas, certamente, deve haver algum outro truque. E, de fato, existe: o Google não paga praticamente nada pela indexação do conteúdo de outros sites. É assim que pode gerar muito dinheiro vinculando as pesquisas a anúncios segmentados; seus custos de produção são mínimos, pois o conteúdo indexado chega quase de graça.

 

Quem preenche o índex de conteúdo útil? Os suspeitos de sempre: bots, pessoas comuns, acadêmicos, adolescentes. Mas, também, muitos profissionais de comunicação e de mídia com poucos recursos que estão construindo suas reputações online com a esperança de produzir conteúdo “viral”. Esse último grupo soa como uma “classe” e uma que não está tão “oculta”. O Google se utiliza do conteúdo produzido em outros lugares, completamente indiferente a como é produzido- seja por meio de trabalho ou de paixão, de risos ou de lágrimas. Aqueles que possuem valiosos dados para indexar – o Twitter, por exemplo – fizeram com que o Google pagasse a eles altas taxas de licenciamento de dados; assim, o Google paga para indexar e lucrar com o conteúdo deles. A maioria dos produtores de conteúdo, no entanto, não tiveram tanta sorte, já que não possuíam o poder de barganha, nem a consciência do que estava acontecendo.

 

Zuboff não tem muito a dizer sobre indexação, apesar de mencionar isso ao longo do livro. Em vez disso, ela usa termos marxistas como “acumulação por espoliação” para argumentar que apropriações violentas de matérias-primas são endêmicas para o capitalismo, não apenas limitadas ao estágio inicial de “acumulação primitiva”. A nova fase neoliberal, ela argumenta, intensifica tais práticas, com o Google sendo o líder do que Zuboff chama de “espoliação digital”: eles estão roubando experiências humanas por toda parte.

 

Termos como “espoliação”, aplicados a um campo intangível, muitas vezes confundem tanto quanto explicam. Há, afinal, um aspecto importante em que os dados são decisivamente diferentes do petróleo: não é escasso. O fato de o Google, depois de uma pesquisa, saber que eu gosto de torradas com abacate, não significa que eu mesmo tenha esquecido que gosto disso. É simplesmete incorreto postular que este é o mesmo tipo de “espoliação” como, por exemplo, o tipo que envolveria alguém fisicamente roubando e pegando para si as torradas com abacate do meu prato. Isto não é argumentar que a minha busca por “torradas com abacate” não produz nenhum valor para o Google, apenas que tratá-la como “espoliação” está errado.

 

Examinadas mais de perto, as queixas de Zuboff sobre a “espoliação” e a “acumulação primitiva” permitem a ela bater forte em capitalistas individuais desalmados, mas também servem para evitar a crítica à mercantilização e à comodificação – o imperativo sistêmico corrosivo do cerne do capitalismo que é apontado, em seu trabalho anterior, como uma fonte de emancipação, e não de exploração. A única vez que Zuboff realmente critica a mercantilização – em dois parágrafos quase idênticos, separados por duzentas páginas – é para reclamar da mercantilização do “comportamento humano”, o bem supremo que está no centro de seu universo.

 

Em vez disso, ela prefere reformular até mesmo os exemplos mais banais de mercantilização sob as noções de “acumulação primitiva” e “espoliação”. Zuboff escreve: “em nosso tempo de ideologia e práticas pró-mercado, esse ciclo [de acumulação primitiva contínua] tornou-se tão difundido que eventualmente deixamos de notar a sua audácia ou contestarmos suas alegações. Por exemplo, agora você pode ‘comprar’ sangue e órgãos humanos, alguém para ter um filho para você, para guardar o seu lugar em uma fila ou garantir uma vaga de um estacionamento público, [pode comprar] uma pessoa para lhe consolar e o direito de matar um animal em extinção”. Não há nenhuma discordância aqui, mas estes são quase todos exemplos de mercantilização, não de “acumulação por espoliação” descrita por David Harvey (a quem ela cita em concordância). Esta acumulação por espoliação muitas vezes implica mercantilização, mas elas não são a mesma coisa. E, de qualquer forma, não são a maioria das atividades que fazem parte da economia de ajuda professada por Zuboff poderosas licenças para a mercantilização completa?

 

Inconvenientes teóricos à parte, um foco analítico adequado, centrado na produção, revelaria que, mesmo que o Google adotasse o modelo advocacy-oriented de Zuboff, ele obedeceria à mesma dinâmica que Zuboff imputa ao capitalismo de vigilância. Por que o parasitismo (freeriding) do Google quando ele mostra publicidade dirigida a uma pessoa de acordo com as consultas dela no seu buscador é um problema maior do que o parasitismo do Google quando se trata de indexar o conteúdo produzido por quem não o utiliza, mesmo que seja para oferecer a seus usuários um serviço superior, pago e, assim, livre de publicidade? Para Zuboff, o primeiro [parasitismo] é mais problemático somente porque a opção advocacy não envolve a modificação de comportamento. O fato deste serviço pressupor contínuas extorsões à fábrica social para obter conteúdo indexável não é sequer um problema nos argumentos, focados no consumo, de The Age of Surveillance Capitalism, principalmente porque essas extorsões são invisibilizadas para o consumidor final e são apresentados como o inevitável subproduto da pesquisa online.

 

Assim, temos uma das principais conseqüências da revolução copernicana de Zuboff. O conceito de capitalismo de vigilância desloca o epicentro da pesquisa e as lutas das quais ela faz parte: em vez de focar na luta por relações de produção e distribuição mais justas dentro da fábrica social digitalizada, ela dedica-se à ética das trocas entre empresas e seus usuários. Fazer do excedente comportamental dos usuários – os consumidores emancipados no trabalho anterior de Zuboff – algo tão crucial para a teoria é concluir que a extração de excedente de todas as outras formas e atores não importa, ou talvez nem exista.

 

É um pouco como dizer que, sob o capitalismo gerencial, as lutas entre capital e trabalho sobre a propriedade dos equipamentos fabris estavam subordinadas às lutas entre gerentes e trabalhadores pelo acesso ao “texto eletrônico”. Zuboff nunca fez essa afirmação em seu primeiro livro, já que ela não estava oferecendo uma teoria do valor – marxista ou não -, mas, sim, documentando as lutas institucionais que surgiram devido à tecnologia da informação.

 

Este último livro procura fazer as duas coisas, mas o aparato teórico de Zuboff não é particularmente adequado para esse propósito. The Age of Surveillance Capitalism oferece uma análise abrangente e aprofundada de como as empresas que baseiam seus modelos de negócio em publicidade têm incentivos para extrair cada vez mais dados, prejudicando os usuários, a democracia e muito mais no processo. O que Zuboff não oferece é um relato de como o valor – tudo isso, não apenas as partes resultantes do excedente comportamental – é produzido na economia digital. Com essa ausência, a suposição anterior de Zuboff de que o capitalismo de vigilância é o pior de todos os possíveis capitalismos de informação é difícil de avaliar, e mais ainda de justificar.

 

XIII.

Não há dúvidas de que a revolução copernicana de Zuboff é um passo atrás em nossa compreensão sobre a dinâmica da economia digital. Mas mesmo modelos analíticos errôneos podem produzir efeitos sociais benéficos. Sem dúvida, o Google e o Facebook serão expostos a um maior escrutínio por qualquer um que ler este livro – o que não é uma conquista trivial. Deveríamos aceitar a utilidade política do modelo de Zuboff enquanto rejeitamos sua validade analítica? Eu prefiro argumentar que só podemos seguir esse caminho se entendermos o preço de fazê-lo: uma compreensão mais confusa em relação às origens, operações e vulnerabilidades do capitalismo digital.

 

Como uma boa chandleriana, Zuboff deduz, muitas vezes examinando os discursos e artigos dos principais executivos, os imperativos que conduzem as empresas de tecnologia. Um problema com essa análise baseada no discurso é que ela é propensa a detectar novidades onde ela na verdade não existe. Assim, ao enquadrar o excedente comportamental como um novo lócus de apropriação capitalista, Zuboff apenas redescobre os mecanismos de feedback debatidos pela cibernética desde os anos 1940. Veja como, em 1974, o cibernético britânico Stafford Beer – que liderou o Projeto Cybseryn, a breve experiência do Chile com o socialismo cibernético – descreveu os perigos de permitir que o setor de publicidade tivesse o conhecimento técnico adequado para se apropriar do feedback do usuário:

 

Vamos usar o poder dos computadores para realizar um processo de edição em nome do único editor que importa – o próprio cliente (…) Se pudermos codificar os interesses e as suscetibilidades de um indivíduo com base no feedback que ele fornece (…) O pessoal de marketing usará essa técnica para aumentar uma resposta, relativamente pequena hoje em dia, para uma resposta na ordem de 90% (…) O loop de condicionamento exercido sobre o indivíduo será completo. Então, fornecemos um sistema fisiológico perfeito para a comercialização de qualquer coisa de que quisermos – não apenas conhecimento genuíno, mas talvez uma “verdade política” ou “a necessidade inevitável de agir contra o governo eleito”.

 

A “descoberta” de Zuboff do excedente comportamental o relacionando com a investida do Google na publicidade também oculta os fundamentos geopolíticos que tornaram possível essa investida. Por que o Google e o Facebook surgiram nos EUA para, então, conquistar o resto do mundo? Uma explicação histórica não-funcionalista indicaria esforços cuidadosamente planejados – iniciados durante a Guerra Fria e empreendidos em Washington, Wall Street, Hollywood e, somente mais tarde, no Vale do Silício – para facilitar o “livre fluxo global de informações”, um eufemismo para o expansão global de empresas norte-americanas que fazem uso intensivo de dados em seus modelos de negócios. Quaisquer desafios a este regime de poder por parte dos países do Sul Global foram esmagados.

 

A história do domínio norte-americano nas telecomunicações globais não começou no 11 de setembro; é muito mais longo e repulsivo. A maneira como identificamos e contextualizamos as suas vítimas é importante – importa saber se remontam há 2003 ou há 1973, quando a experiência, desenvolvida por Beer no Chile, de um socialismo cibernético foi reprimida. Afirmar que “o capitalismo de vigilância foi inventado por um grupo específico de seres humanos em um tempo e lugar específicos” é apagar grande parte dessa história anônima. Ao buscar explicar e denunciar a nova dinâmica do capitalismo de vigilância, Zuboff normaliza demais o próprio capitalismo.

 

Relacionado a isso está, ao estilo Fukuyama, o enquadramento dela sobre a escolha enfrentada pela civilização da informação: uma escolha entre o capitalismo de vigilância e o advocacy-oriented capitalism. Não deveríamos primeiro nos perguntar por que, por volta da década de 1990, nossas necessidades de informação deixaram de ser atendidas por instituições públicas – como bibliotecas, universidades ou agências de correios -, para, ao invés delas, serem atendidas por corporações? O neoliberalismo limitou-se a aumentar os dividendos de acionistas (shareholder value) e a promover a desregulamentação, como aponta Zuboff através de uma perspectiva empresarial? Ou teria outras dimensões mais relevantes?

 

Por exemplo, um dos fatores-chave que contribuíram para o sucesso da agenda neoliberal foi a retórica difusa da “soberania do consumidor”, que soa como algo que Zuboff poderia endossar. Essa ideologia reinventou a sociedade como algo composto por consumidores oportunistas, ao invés de composta por membros de instituições motivadas por solidariedade, como os sindicatos. Os instrumentos regulatórios e de crédito voltados para a modificação comportamental foram adotados pelos formuladores de políticas neoliberais precisamente porque o trabalho deles era transformar essa noção em realidade. Como Margaret Thatcher disse, “economia é o método; o objetivo é mudar a alma”. Será que uma identidade pós-neoliberal, receptiva às ideias de solidariedade, emergirá por si mesma sem um esforço similar de modificação comportamental? E deveríamos renunciar categoricamente à modificação comportamental para combater o aquecimento global ou o sexismo?

 

Ao buscar explicar e denunciar a nova dinâmica do capitalismo de vigilância, Zuboff normaliza demais o próprio capitalismo

 

Para além de exigir novos direitos e novas leis, Zuboff – uma reformista, não uma revolucionária – não oferece nenhuma agenda concreta. Essa lacuna política pode ter como origem a forma pela qual o capitalismo de vigilância e sua principal mercadoria fictícia, a experiência humana, são definidas. Obviamente, ninguém defende a socialização da experiência humana. Mas se definirmos a mercadoria fictícia como dados, tornam-se possíveis demandas políticas razoáveis como novos regimes de propriedade de dados. Ao descartar tais demandas como meramente um reforço ao status quo, Zuboff refere-se apenas a planos, como os do Fórum Econômico Mundial, para tratar os dados como uma classe de ativos. Mas e quanto às propostas de regimes mais igualitários de propriedade de dados, os quais, transcendendo a propriedade privada, nem aparecem no radar corporativo?

 

Atacar Zuboff pela pobreza da sua agenda política, no entanto, é ignorar como essa própria debilidade é compatível com a escala do problema que ele visa. Pressupondo que o problema é a modificação do comportamento humano, ela amplia o modelo analítico fornecido pela teoria liberal dos direitos individuais a novos domínios – ao “direito ao refúgio (sanctuary)” e o “direito ao futuro (future tense)”. Essa resposta é lógica dentro do modelo de Zuboff: novas formas de capitalismo violam direitos individuais; nesses casos, a sociedade tradicionalmente cria novos direitos; isto é o que devemos fazer agora.

 

Se abandonarmos as amarras epistemológicas da tautológica Tese III de The Age of Surveillance Capitalism e dos mitos chandlerianos sobre a natureza idílica do capitalismo gerencial, descobriremos que problemas anteriores eram de maior alcance e que foram resolvidos – quando foram – de maneira diferente. Isso não significa abandonar a luta por direitos, mas reconhecer que eles também podem ter formas diferentes. E quanto,  por exemplo, a novos direitos sociais e econômicos, como o direito ao uso incondicional e ilimitado da infraestrutura computacional, amparado pelo direito universal à forte criptografia quando necessária, que pode levar a novas formas de coordenação baseadas na solidariedade e não na busca pelo lucro?

 

O maior obstáculo no caminho para tais direitos é que o consumidor-usuário emancipado de Zuboff é praticamente incapaz de fazer demandas coletivas pela via constitucional, a menos que essas demandas sejam destinadas a promover um maior e melhor consumo. Assim, ela escreve, aprovando, que “a primeira modernidade suprimiu o crescimento e a expressão de si em favor de soluções coletivas (…) na segunda modernidade, o eu é tudo o que temos”. É a partir dessa sombria concepção de socialização que o consumo surge como a instituição por excelência de uma modernidade povoada por indivíduos, não por coletivos.

 

XIV.

Ao contrário das expectativas dos autonomistas italianos – que previam a vinda do feudalismo futurista emancipatório no qual trabalhadores cognitivos reivindicam os meios de produção enquanto testemunham os capitalistas perderem o controle sobre a extração de valor – os capitalistas não desapareceram. Eles apenas fizeram um breve período sabático para inventar formas mais sutis e engenhosas de taylorismo. Steve Jobs nos prometeu computadores como “bicicletas para a mente”; o que temos são linhas de montagem para o espírito.

 

Vale a pena refazer essas linhas de montagem em oficinas artesanais? Ao escrever sobre a “mutação” dentro do “capitalismo da informação” e de uma “vacina” a ser aplicada contra o capitalismo de vigilância, Zuboff acredita piamente que é possível uma alternativa capitalista mais humana. Nós só precisaríamos abandonar a modificação comportamental. Um sistema de saúde fornecido pela Apple – caro, mas com proteção para os dados – seria melhor do que um sistema de saúde fornecido pelo Google – gratuito, mas com possibilidade de violação de dados? Possivelmente. Mas devemos realmente escolher entre os dois? Ou nossa imaginação institucional pode esboçar outras alternativas?

 

A escolha entre o Google e a Apple se baseia em uma escolha anterior entre capitalismo e não-capitalismo, que o olhar chandleriano de Zuboff não costuma registrar. Como a empresa é a unidade básica de análise, enxergar além do capitalismo é difícil, mesmo que os movimentos duplos possam modificar as operações do capitalismo. Além disso, há muito tempo Zuboff chegou à conclusão de que não há nada além da forma mercadoria. A mercadoria, como argumentou em The Support Economy, não é mais algo para se temer; “Tudo o que pode ser mercantilizado”, proclamou, “será mercantilizado”.

 

Podemos domesticar a mercadoria através de um desses movimentos duplos, mas e sobre uma vida para além das mercadorias? Esqueça. A sociedade pós-industrial viu seu próprio “fim da história” chegar antes do previsto. Não precisamos recorrer ao pessimismo elitista da Escola de Frankfurt – por incrível que pareça, uma inspiração para Zuboff – para ver que uma teoria que não tem nada externo ao consumo é de pouca ajuda para combater o Facebook e o Google. O paradoxo central do pensamento de Zuboff permanece: a experiência humana deve ser protegida de se tornar uma mercadoria fictícia, e, assim, possa ser emancipada e enriquecida por outras mercadorias.

 

Steve Jobs nos prometeu computadores como “bicicletas para a mente”; o que temos são linhas de montagem para o espírito

 

Os autonomistas, apesar da capitulação muito semelhante às explicações funcionalistas e da leitura quase teológica do capitalismo moderno, corretamente sugerem que uma existência social mais descentralizada e não-mercantilizada é possível e desejável. A própria versão deles da segunda modernidade, como a de Zuboff, vê indivíduos se desprendendo das células suburbanas padronizadas que lhes foram atribuídas pela modernidade incompleta da produção em massa. Mas, ao contrário dela, eles argumentam que a verdadeira emancipação – incluindo instituições burocráticas, não apenas as de mercado – não virá do consumo individualizado de serviços (advocacy services), mas da produção coletiva de novas instituições democráticas. Eles rejeitam a noção de Zuboff de “espaço individual”, insistindo que o espaço da autorrealização genuína é sempre o social.

 

Na falta de uma teoria sobre quais instituições e práticas deveriam estar fora da lógica do capitalismo, Zuboff só pode recorrer aos direitos e ao consumo individuais. Definida de forma tão restrita, o movimento duplo preferido dela certamente será sequestrado pelo Tim Cook, da Apple. Deveríamos dar uma oportunidade à Apple apenas porque sua “advocacy” envolve aparelhos excessivamente caros que, embora ofereça um mínimo de privacidade, também leva à inevitável mercantilização? Não nos importamos se a criptografia forte é um direito universal ou um serviço comercial? A modificação comportamental causada por imperativos monetários é menos maléfica do que a opressões relacionadas a dados digitais? Se assim for, nosso problema é com o “dataismo de vigilância” (surveillance dataism), não com o capitalismo de vigilância.

 

Zuboff, surpreendentemente, deixa essa porta interpretativa aberta. Redefinido como um alerta contra o “dataismo de vigilância”, o livro se sustenta muito bem. A profecia anti-dataísta (anti-data-ist) permite que Zuboff desvie das acusações de tautologia, reduzindo as explicações relacionadas aos imperativos capitalistas. Em vez disso, ela pode afirmar que o “poder instrumental” na verdade consolida uma lógica política mais ampla – talvez, como a “governamentalidade” de Foucault – que transforma as empresas capitalistas em meros peões no jogo disciplinar do comportamento humano. Os capitalistas não têm escolha senão participar desse projeto anônimo de dominar as infinidades do devir humano; onde eles conseguem, eles também fazem lucros, mas esses imperativos rudimentares são apenas secundários, não a sua missão geral. Essa reformulação, no entanto, tira do livro a sua própria lógica de ser: supõem-se que seja uma teoria do capitalismo, o chandlerianismo 2.0, escrito por uma professora de negócios – não um tratado sobre a sociedade disciplinar do “dataísmo”. Sem falar também que grande parte da teoria social que a própria Zuboff convoca para falar de uma “terceira modernidade” vai diretamente contra a interpretação foucaultiana dessa época.

 

A revolução copernicana de Zuboff é muito mais fácil de explicar por sua filiação a Chandler do que a Foucault. As proposições de Chandler geralmente limitavam-se a exigir que os gerentes fossem mais responsáveis. Zuboff transcende esse derrotismo. Mas seu duplo movimento não vencerá antes que tanto o capitalismo gerencial quanto o capitalismo de vigilância sejam teorizados como “capitalismo” – um conjunto complexo de relações históricas e sociais entre capital e trabalho, o Estado e o sistema financeiro, a metrópole e a periferia – e não apenas como um agregado de empresas individuais respondendo a imperativos de mudanças tecnológicas e sociais. O fato de que  esta explicação miniaturizada de empreendimento competitivo seja a definição de “capitalismo” trabalhada pelas escolas de negócios americanas não é motivo para empobrecer uma discussão mais ampla sobre os fundamentos e deficiências do sistema.

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Imagem deste post: Colin Anderson.