#Dobras 35 // MediaLab.UFRJ no Simpósio LAVITS 2019

O Simpósio LAVITS 2019 já começou! Veja aqui os resumos dos trabalhos dos(as) pesquisadores(as) do MediaLab.UFRJ que participarão do evento que acontece em Salvador (BA), entre os dias 26 e 28 de junho. A programação completa está disponível neste link.

 

SESSÕES TEMÁTICAS

 

Pesquisadores: Fernanda Bruno, Paulo Tavares, Adriano Belisário e Marlus Araújo

Título: Expulsão/Exceção: arquitetura forense, conflito e direitos humanos

Resumo: A produção de evidências é um aspecto fundamental da resistência às práticas autoritárias, seja no meio jurídico ou comunicacional. Assim, cada vez mais, organizações da sociedade civil se apropriam de práticas antes restritas às forças oficiais, como as técnicas forenses, para dar visibilidade à violência de Estado em conflitos socioambientais. A sessão irá apresentar alguns conceitos-chave da metodologia inspirada na arquitetura forense, bem como casos de exploração desta metodologia em situações de violações de direitos humanos por parte do Estado e/ou corporações na América Latina. Neste contexto, em parceria com a Agência Autônoma, o MediaLab.UFRJ desenvolve desde o final de 2017 duas iniciativas neste sentido, que serão apresentadas na sessão. A primeira é o projeto Expulsión, que investiga o impacto da megamineração impulsionada por grandes corporações na Amazônia Equatoriana, causando remoções de populações indígenas, destruição de patrimônio arqueológico e diversos impactos socioambientais. Já a segunda é uma investigação sobre violência policial no Rio de Janeiro, com um foco específico nos casos de disparos a partir de helicópteros em comunidades densamente povoadas. Os dois trabalhos vêm sendo elaborados junto a organizações de base em cada contexto: a Comunidad Amazónica de Acción Social Cordillera del Condor-Mirador (CASCOMI) e a Fundación Regional de Asesoría en Derechos Humanos (INREDH), no Equador; e a Redes da Maré e o Defezap no Rio de Janeiro.

Palavras-chave: Arquitetura forense; Direitos humanos; Evidências.

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ST 3A – Direitos Assimétricos e Economia de Dados

Pesquisador: Paulo Faltay

Título: Conspiração e engajamento: o modelo de negócios paranoico do capitalismo da vigilância

Resumo: Evidências que o planeta é plano, os perigos da vacinação, fraudes envolvendo as urnas eletrônicas nas eleições brasileiras, estratégias de dominação comunista das instâncias de poder global. Grande parte do conteúdo que trafega em redes sociais, sites de compartilhamento de vídeos e aplicativos de comunicação é formada por teorias e narrativas conspiratórias. Apesar das grandes empresas de tecnologia anunciarem medidas para combater informações não-factuais em suas plataformas, as precauções esbarram em um fator estrutural: a circulação de imagens, vídeos e textos envolvendo essas temáticas é parte significativa do seu modelo de negócios.

Examinando o Youtube e o seu sistema de recomendação automatizado, esta proposta se debruça sobre como o capitalismo de vigilância mobiliza a conexão entre os campos da psicologia, da comunicação e da tecnologia em sua lógica de acumulação. Defendo que a popularidade do consumo de conteúdos conspiratórios, para além de circunscrita a delírios ou fantasias individuais, deve-se às infraestruturas sociotécnicas do ecossistema informativo, cada vez mais opaco, concentrado e oligopolizado, em suas configurações materiais e simbólicas de agência, sociabilidade e subjetividade.

A hipótese aqui desenvolvida é que os modelos de monitoramento e análises algorítmicos do comportamento online estão menos assentados em um suposto caráter preditivo e oracular e mais voltados para a constituição de um infraestrutura de engajamento. Com o objetivo de manter as pessoas conectadas, a captura intermitente de dados digitais pelas plataformas não opera privilegiando métodos de descoberta e detecção fidedignos de traços psicológicos e de personalidade, mas é utilizada para a construção de sistemas que definem e condicionam as possibilidades pelas quais estas características comportamentais, relacionais e emocionais são expressadas, avaliadas e mobilizadas.

Palavras-chave: Capitalismo da vigilância; Teorias da conspiração; Economia das plataformas; Engajamento.

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ST 1A – Trabalho e Vigilância de Plataforma: novas e velhas assimetrias

Pesquisadora: Anna Bentes

Título: A indústria da influência e a gestão algorítmica da atenção

Resumo: O potencial das tecnologias para influenciar o comportamento humano vem sendo explorado por múltiplos atores e setores, através de diferentes estratégias e para inúmeras finalidades. Na dinâmica do capitalismo de vigilância, o monitoramento digital possibilita a coleta, o acúmulo e a análise de milhares de informações sobre indivíduos e populações que, a partir de técnicas computacionais, são utilizadas para conhecer, classificar, reconhecer padrões de ação individuais e relacionais a fim de prever e influenciar os comportamentos. Nesse contexto sóciotécnico, os algoritmos exercem um papel protagonista, pois são seus processos automatizados que ao mesmo tempo extraem valor dos dados e ofertam um mundo visível de ações e interações possíveis para os usuários.

Para a economia digital, formas de gestão algorítmica da atenção são parte importante das estratégias para persuadir as condutas assim como para produção de valor nessa lógica de acumulação. Mecanismos de recomendação algorítmica, técnicas de mircrotargeting e outros elementos da arquitetura das plataformas são utilizados para enganchar e engajar a atenção dos usuários a fim orientá-la em certa direção. Assim, com um crescente interesse por informações psicológicas extraídas de nossos dados, essa indústria busca arquitetar um contexto propício para sugerir conteúdos específicos, em momentos estratégicos, a perfis vulneráveis para persuadir o comportamento de usuários tanto para os fazer clicar em anúncios quanto para influenciar seu voto.

O objetivo dessa proposta é discutir e analisar algumas das estratégias dessa indústria da influência digital, enfatizando como o comportamento é persuadido a partir de técnicas de gestão da atenção. Deste modo, veremos como as engrenagens do capitalismo de vigilância estão articuladas com as da economia da atenção, combinando estrategicamente saberes psicológicos e técnicas computacionais para prever e influenciar o comportamento assim como para capturar, mobilizar e direcionar a atenção de usuários.

Palavras-chave: Capitalismo de vigilância; Economia da atenção; Algoritmos; Influência; Subjetividade.

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ST 4B – Modos de subjetivação na cultura da vigilância

Pesquisadora: Paula Cardoso

Título: Dívida, classificação, antecipação: sobre modos de subjetivação a partir do Cadastro Positivo

Resumo: De que modo o novo Cadastro Positivo, banco de dados que reúne informações financeiras de pessoas físicas e jurídicas para avaliar o risco de oferta de crédito e sancionado esse ano, e a Quod, birô de crédito criado a partir da fusão dos cinco maiores bancos em atuação no país, sintetizam as novas relações entre capitalismo, vigilância e subjetivação nas sociedades contemporâneas?

Há várias implicações em jogo com a entrada em vigor do novo Cadastro Positivo, sobretudo, relacionadas à proteção de dados pessoais, mas que não se esgotam aí. A opacidade dos algoritmos, as avaliações potencialmente arbitrárias e o impacto social sobre minorias, que tende a agravar as desigualdades já existentes, além dos evidentes ataques à privacidade e aos direitos do consumidor que a adesão automática de 120 milhões de brasileiros à base de dados representa são algumas dessas dimensões problemáticas.

Da produção subjetiva da crise, sintetizada na figura do homem endividado (Lazzarato), passando pela proliferação dos sistemas de classificação baseados em comportamentos, pelo uso de algoritmos preditivos para automatizar decisões sobre indivíduos à incorporação das tecnologias de reconhecimento facial no cerne das práticas cotidianas veremos como estes sistemas sociotécnicos materializam um conjunto de técnicas, práticas e discursos emblemáticos dos “modos de existência” que vinculam os regimes contemporâneos da vigilância e da financeirização da vida.

Assim, exploraremos as implicações éticas e biopolíticas do novo Cadastro Positivo, enquanto rede de atores humanos e não-humanos, e ensaiaremos algumas hipóteses sobre os modelos de sujeito e modos de subjetivação que surgem da interseção entre a dívida, a classificação e a antecipação.

Palavras-chave: Dívida; Previsão; Classificação; Subjetivação.