Vigilância e repressão sobre a imprensa operária carioca no século XX: o caso das gráficas do PCB

Por Wilson Milani

 

Os agentes policiais cuidaram da composição da imagem. É como se provas irrefutáveis de um crime estivessem sendo expostas. Um olhar e uma atenção vigilantes se dedicam a documentar a cena, organizando o campo visual de modo a extrair dele o máximo possível de informação.

Uma narrativa de “subversão” e “perigo” é construída pela disposição mais ou menos organizada dos elementos na sala: jornais, panfletos, revistas, um mimeógrafo, tipos e caixas, livros.

Sob guarda do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), esta e dezenas de outras imagens mostram “estouros” de gráficas clandestinas do Partido Comunista do Brasil (PCB) realizados pela polícia no decorrer do século XX.

Tratadas pela direção do partido como peça-chave no trabalho militante e na propagação do ideário de transformação social, as gráficas foram responsáveis, especialmente na primeira metade do último século, pela circulação de literatura marxista no país, seja por meio de reproduções de livros estrangeiros traduzidos, seja pela impressão de simples folhetos.

Em razão disso, havia uma vigilância contínua e inescrupulosa por parte do Estado em torno dos locais em que o material do PCB era produzido. A militância, por sua vez, procurava proteger as oficinas e os tipógrafos com a maior segurança e sigilo possíveis.

A  tese vai se debruçar, portanto, sobre o modo como agia a polícia política no trabalho de vigilância e repressão das tipografias e dos militantes gráficos do PCB durante dois momentos de ditadura no país: Estado Novo (1937-1945) e regime militar (1964-1985).

Em especial, dois casos de “estouros” de oficinas do PCB, ocorridos em 1940 e 1975, serão analisados.

 

O acervo do APERJ

A polícia política brasileira produziu, em 60 anos de atuação, um vasto acervo fotográfico, formado por aproximadamente 100 mil imagens. O conteúdo iconográfico conta ainda com panfletos e cartazes, que se somam a mais de um milhão e meio de fichas remissivas, 750 metros de textos em forma de prontuários e inquéritos, além de objetos e documentos de organizações políticas apreendidos durante diligências.

O material arquivado é proveniente do exercício duradouro e sistemático da vigilância estatal. Ele retrata tanto a vida partidária do PCB quanto as lutas sociais travadas ao longo de um período histórico considerável, que vai de 1922 a 1983.

A respeito de tais registros, Bastos (2010, p. 73) afirma que “as imagens existem como documento, mas a existência delas no Arquivo lhes garante, sobretudo, uma sobrevivência própria e propiciam um caminho autônomo e peculiar de constituição da história”.

Logo, a tese vai se dedicar à construção de uma história menor e ainda pouco explorada, a da vigilância policial sobre gráficos e oficinas da maior organização da classe operária no século XX. Toma-se como referência as fontes primárias do APERJ e a bibliografia especializada da área.

 

Por que as gráficas?

De 1917 (Revolução Russa) ao princípio da década do golpe militar (1960), os ideais de emancipação e igualdade sociais circulavam entre as classes trabalhadoras por meio de jornais, revistas e livros (opúsculos, em sua maioria), mas também por meio de panfletos e apostilas.

O PCB era quem se incumbia majoritariamente desse trabalho político-editorial. As ideias marxistas estavam praticamente ausentes de teses, dissertações, aulas e seminários das universidades brasileiras. O partido assumiu, portanto, importância inegável ao traduzir, publicar e distribuir a preços populares uma miríade de conteúdos.

Eram muitas vezes os meios pelos quais se davam as experiências de leitura e formação da esquerda. Daí advém a relevância das gráficas e tipografias e explica em parte a sanha policialesca da polícia política para com elas, e o interesse deste trabalho em analisar mais amplamente a relação entre máquinas impressoras, letramento e difusão do ideário de transformação social no Brasil.


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