#Estamos Lendo_12 // Onde Aterrar?, Bruno Latour

26 de maio de 2023

Por Henry Fragel*

Publicado no Brasil em 2020, o ensaio de Bruno Latour “Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno” se propõe a desenhar mapas para uma “política da pós-política”, que tem como marco inicial a dissolução da União Soviética nos anos 90, propagandeada como uma vitória final do Ocidente sobre o comunismo, e consolida-se com a eleição e o governo presidencial de Donald Trump em 2016 e a saída do Reino Unido da União Europeia. 

Esse período, caracterizado pelo desmantelamento do Estado-providência, pela negação do “Novo Regime Climático” e pelo aprofundamento de desigualdades sociais, especialmente em função do controle de territórios habitáveis e deslocamentos migratórios decorrentes desses conflitos, culmina no que Latour define como o primeiro governo pautado pela negação ecológica. Não apenas a negação de que as atividades humanas sobre o planeta estão resultando em panoramas irreversíveis de mudança climática e ameaça ambiental, mas a negação da promessa da democracia e da cidadania de que todo indivíduo tem direito a um lugar e um futuro no mundo comum enquanto as elites proprietárias se refugiam em invólucros como as fronteiras e as identidades. 

Apesar da autodefesa que o autor lança nas primeiras páginas, assumindo o tom bruto intencional e a definição de ficção política para o conjunto de vinte breve capítulos que compõem o livro, Latour traz dados e exemplos contundentes para fundamentar suas afirmações sobre as intituladas elites obscurantistas. Ele argumenta que as elites, conscientes do colapso ambiental causado pelo modo de vida moderno, deliberadamente investiram em campanhas de desinformação. A petrolífera ExxonMobil, mencionada no texto, realizou uma série de estudos que datam desde a década de 70 e que prevêem com precisão de 63 a 83% as mudanças de temperatura global que ocorreram posteriormente[1]https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2023/01/12/exxon-mobil-empresa-multinacional-de-petroleo-previu-o-aquecimento-global-em-1970.ghtml . Ainda assim, a empresa nega oficialmente, desde os anos 90, qualquer mudança climática e o papel dos combustíveis fósseis em possíveis mudanças e associa-se a organizações que minam ações políticas voltadas para a preservação ambiental.

“… as elites se convenceram tão bem de que não haveria vida futura para todos que decidiram se livrar o mais rápido possível de todos os fardos da solidariedade – isso explica a desregulação. Decidiram que seria preciso construir uma espécie de fortaleza dourada para os poucos que poderiam se safar – do que decorre a explosão das desigualdades. E resolveram que, para dissimular o egoísmo sórdido de tal fuga para fora do mundo comum, seria preciso rejeitar absolutamente a ameaça que motivou essa fuga desesperada – o que explica a negação da mutação climática.” (Latour, 2020, p. 23)

Os altos investimentos em desinformação, aliado à propagação do sentimento de insegurança diante da desregulamentação das garantias do comum, converte afetos comuns em solo para a desconfiança e coloca a lógica valorizada pelos racionalistas em segundo plano quando se trata de disputas pelo planeta. Para essa pós-política que delineia, basseada na escassez de horizontes compartilhados, Latour sugere que categorias consolidadas como Direita/Esquerda, Global/Local, Passado/Futuro sejam flexibilizadas e reorientadas em torno de duas relações polares de atratores políticos: o Local-a-modernizar e o Globo-da-modernização, o Terrestre e o Fora-deste-mundo.

“Nenhum conhecimento comprovado, como bem sabemos, sustenta-se sozinho. Os fatos só ganham corpo quando, para sustentá-los, existe uma cultura comum, instituições nas quais se pode confiar, uma vida pública relativamente decente, uma imprensa confiável na medida do possível.” (Latour, 2020, p. 26)

Tanto os polos Local como Global são descritos como contingentes de potenciais “mais” e “menos”. O Local-menos aponta para o passado, para a proteção promovida pela tradição e estabilidade da identidade sob a validação de fronteiras étnicas e nacionais, e a Globalização-menos aponta para o futuro de projetos modernizadores calcados no ideal de progresso e mercados ilimitados. São movimentos que limitam, restringem e respaldam mecanismos de exclusão, ao contrário do Local-mais e Globalização-mais, que consistem na multiplicação de pontos de vista, “no registro dos modos de existência que impedem que nos limitemos a uma única localidade e que nos mantenhamos no interior de qualquer fronteira que seja” (Latour, 2020, p. 85).

A contraposição entre os atratores Fora-deste-mundo e o Terreste busca dar conta da figuração política do planeta, em que o primeiro nomeia os atores que não integram uma realidade de pertencimento a um solo comum que não é meramente substrato, mas é integrado e reativo à experiência humana, e o segundo, identifica e pauta os agentes ditos “naturais”.

“Se a composição do ar que respiramos depende dos seres vivos, ele não é mais o ambiente em que tais seres se situam e onde evoluem; ele é, de certa forma, o resultado da ação daqueles seres. Dito de outro modo, não há organismos de um lado e meio ambiente do outro: o que há é uma sobreposição de agenciamentos mútuos. A capacidade de ação é, assim, redistribuída.” (Latour, 2020, p. 71)

Ao longo das diversas questões que Latour levanta, ora mais superficial e brevemente, ora de modo mais complexo e aprofundado, a constante que alinha o trabalho ambicioso e experimental do autor é a crítica ao caráter espoliador do processo modernizador que é empreendido há séculos pelos países que erigiram o ideal de “Ocidente” que hoje se esfarela. Em um momento histórico caracterizado pela “carência universal de espaço a compartilhar e de terra habitável” (Latour, 2020, p. 14), as mesmas elites que fertilizaram o caos voltam o olhar para as massas de migrantes, refugiados, desabrigados produzidas por guerras civilizatórias, desastres naturais e pela modernização neoliberal e perguntam: “‘Como vocês fizeram para resistir e sobreviver? Também seria legal aprender isso com vocês’.” (Latour, 2020, p. 14)

 

Latour, Bruno. Onde aterrar? Como se orientar politicamente no Antropoceno. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2020. 

*Henry é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura/ECO-UFRJ e pesquisador do MediaLab.UFRJ.

 

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