#TBT // 1 ano do Relatório “Tudo por conta própria”: aplicativos de autocuidado psicológico e emocional

27 de maio de 2021

Há um ano publicamos o relatório “Tudo por conta própria”: aplicativos de autocuidado psicológico e emocional”*. Vivíamos o segundo mês da pandemia, declarada oficialmente pela OMS no dia 11 de março de 2020. Passados 12 meses do lançamento do relatório, os números da Covid-19 no mundo e, especialmente no Brasil (mais de 450 mil mortes e 16 milhões de casos), são estarrecedores e acompanhamos, desde o último dia 27, a CPI no Senado que investiga as ações e omissões do governo federal no combate à pandemia.

Jamais esperávamos que a situação se agravasse exponencialmente por mais de um ano, mas já assinalávamos a relação do contexto de exceção e vulnerabilidade como fator de aumento na utilização de aplicativos voltados para o autocuidado psicológico e emocional. Na época, apontamos a centralidade do tema “saúde mental”, que a própria OMS destacava como aspecto importante durante a pandemia, e a ansiedade e o estresse como principais impactos psicológicos. 

Apresentamos um levantamento sobre o mercado de dados móveis no período que cobria a primeira quarentena oficial no Brasil e já indicava nas primeiras semanas da pandemia mundial o aumento no número de downloads de aplicativos de saúde e fitness. 

Nos doze dias entre 14 e 26 de março de 2020, a instalação de aplicativos desta categoria tiveram um aumento de 226% em downloads impulsionados por anúncios e de 116% em downloads orgânicos. O crescimento permaneceu estável até a semana entre 20 e 27 de abril, na qual os impulsionamentos pagos marcaram um salto de 20% de sucesso. Este levantamento não foi mais atualizado. 

Enquanto não temos novos dados consolidados, um caso específico nos ajuda a analisar o contínuo aumento no uso e ofertas desses aplicativos durante a pandemia. 

No final de 2020, o aplicativo de meditação Calm junta forças com a plataforma Gympass, plataforma digital que conecta usuários e colaboradores interessados em saúde e bem-estar para atividades online e offline. O aplicativo, que conta com mais de 19 milhões de downloads, e a plataforma, que conecta 3 milhões de assinantes, investiram em campanhas de impulsionamento baseadas no dado divulgado pela International Stress Management Association de que o Brasil é o segundo país do mundo com maior incidência de estresse.

Em março deste ano, em uma entrevista à revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios, a CEO do Gympass, Priscila Siqueira, revelou que, em 2020, dos mais de 2 milhões de check-ins realizados pelos perfis da rede, 35% correspondem a aplicativos de saúde mental e emocional.

Outro levantamento baseado nos dados da plataforma reporta a utilização desses aplicativos nos primeiros quatro meses de 2021. Segundo eles, apenas o primeiro trimestre do ano superou em 130% a média de uso de 2020. De janeiro a abril, as experiências com aplicativos de saúde mental e emocional tiveram acréscimo de 54% em relação ao último trimestre do ano passado.

Os dados internos da corporação não são verificáveis, mas demonstram o interesse estratégico  de grandes investidores em aplicativos de autocuidado psicológico e emocional. Adquirindo grande consciência de mercado dentro do setor fitness,  a questão da saúde mental foi porta de entrada para muitos novos aplicativos e plataformas digitais no cotidiano reconfigurado pela pandemia.

Concluímos o primeiro relatório parcial antes do início da pandemia e, embora os resultados preliminares já apresentassem números significativos, depois de um ano conturbado pelo impacto cotidiano do distanciamento social, as implicações econômicas, políticas, sociais e subjetivas do fenômeno se revelam cada vez mais complexas. 

Acesse aqui o arquivo completo do relatório.

Ver mais publicações relacionadas ao projeto:

BRUNO, Fernanda. A economia psíquica dos algoritmos: quando o laboratório é o mundo. Jornal NEXO, 12 de junho de 2018. Disponível em: <https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2018/A-economia-ps%C3%ADquica-dos-algoritmos-quando-o-laborat%C3%B3rio-%C3%A9-o-mundo>

BRUNO, Fernanda; BENTES, Anna; FALTAY, Paulo. Economia psíquica dos algoritmos e laboratório de plataforma: mercado, ciência e modulação do comportamento. Revista Famecos, Porto Alegre, v. 26, nº 3, set-dez, 2019.  Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistafamecos/article/view/33095 >

 

*O relatório é parte da pesquisa Economia Psíquica dos Algoritmos: racionalidade, subjetividade e conduta em plataformas digitais, coordenada pela Profa. Fernanda Bruno (membro da LAVITS) e desenvolvido com a equipe do MediaLab.UFRJ, em parceria com a Rede LAVITS. Ele apresenta resultados preliminares do estudo de 10 aplicativos de autocuidado psicológico e emocional utilizados no Brasil, gratuitos e disponíveis na Google App Store.


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