Economia psíquica dos algoritmos: persuasão, emoção, atenção

Este projeto reúne pesquisas individuais e coletivas realizadas por pesquisadores do Medialab UFRJ que investigam de forma abrangente os efeitos sociais, políticos e subjetivos das operações algorítmicas nas tecnologias contemporâneas.

Nessas pesquisas, buscamos analisar diferentes aspectos das engrenagens de um capitalismo de dados cada vez mais feroz, e de um poderoso laboratório que captura, analisa e utiliza as cargas psíquicas e emocionais de nossos dados, com fortes efeitos sociais e políticos.

Sob a ordem de grandeza do big data e a gestão algorítmica, os difusos processos do monitoramento digital compõem uma nova lógica de acumulação capitalista que procura prever e modificar o comportamento humano como meio de produzir receitas e controle de mercado.

Casos controversos como o uso de dados pessoais pela Cambridge Analytica na eleição norte-americana de 2016[1][2] e o experimento realizado pelo Facebook, em 2104, intitulado Evidência experimental de contágio emocional em escala massiva através de redes sociais [3] nos revelam não apenas os usos indevidos de nossos dados para fins eleitorais e econômicos, sem nosso conhecimento e autorização. Eles expõem os bastidores de uma nova lógica de acumulação capitalista que direciona imensos volumes de dados para aplicação de estratégias de persuasão sobre o comportamento humano. Revelam, assim, uma lógica presente nos mercados tecnológicos contemporâneos que é a condição normativa da própria estrutura de funcionamento da economia de plataformas.

Neste cenário, os deslocamentos históricos nas relações entre ciência, economia, tecnologia e sociedade apontam para a configuração de uma nova dinâmica de acumulação da economia digital, chamada por Shoshana Zuboff (2015; 2016) de capitalismo de vigilância e por Nick Srnicek (2017) de capitalismo de plataforma, ou, como podemos sugerir, capitalismo de dados. Cabe destacar nessa clivagem de acumulação, cujos recursos ao mesmo tempo abundantes e escassos são a informação e a atenção, o quanto nossas emoções e traços psíquicos estão sendo visados pelos algoritmos que extraem valor de nossos dados, ações e comportamentos online. Os casos mostram, portanto, que é preciso compreender a economia psíquica dos algoritmos no capitalismo de dados pessoais, suas implicações sociais e políticas, bem como suas máquinas de subjetivação. De que modo as subjetividades, seus afetos, desejos, sua atenção e sua percepção estão sendo mobilizados e modulados por essas máquinas e corporações?

Nesta lógica de acumulação, as fronteiras entre o laboratório e a vida social, política e subjetiva tornam-se extremamente tênues, o que nos convoca a recolocar o problema das relações entre ciência, tecnologia e sociedade nesse novo cenário. Estamos diante de um laboratório-mundo ou de uma ciência de plataforma[4], intimamente conectada às engrenagens do mercado dados pessoais, em que uma complexa e crescente economia psíquica e emocional nutre algoritmos que pretendem nos conhecer melhor do que nós mesmos, além de fazer previsões e intervenções sobre nossas emoções e condutas.

Trata-se de uma economia psíquica dos algoritmos que, com suas estratégias próprias, extraem valor e capitalizam nossa atenção a fim de exercer persuasão sobre nosso comportamento que provocam efeitos reais em nossas condutas e emoções. Ou seja, é sobre fabricação de mundos/o mundo que estamos fabricando.

Neste projeto, portanto, reunimos diferentes estratégias metodológicas bem como a análise de diferentes desdobramentos deste contexto. A dimensão laboratorial dos algoritmos (Bruno, 2018), sua relação com a economia da atenção (Bentes, 2018), com as técnicas de persuasão e influência e a produção de subjetividades paranoicas (Faltay, 2018) e os efeitos de uma algoritmização da vida (Regattieri, 2018) são alguns dos aspectos analisados nas dinâmicas da economia psíquica dos algoritmos.

Pesquisadores:  

Fernanda Bruno Professora do PPGCOM

Anna Bentes Doutoranda do PPGOM

Lorena Regattieri Doutoranda do PPGCOM

Paulo Faltay Doutorando do PPGCOM

Victor Vicente Mestrando do PPGCOM

 

[1] https://www.nytimes.com/2018/03/17/us/politics/cambridge-analytica-trump-campaign.html

[2] https://www.theguardian.com/news/2018/mar/17/cambridge-analytica-facebook-influence-us-election

[3] Adam D. I. Kramer, Jamie E. Guillory e Jeffrey T. Hancock (2014). Disponível em: http://www.pnas.org/content/111/24/8788.full

[4] A expressão é uma referência ao já citado termo “Capitalismo de plataforma” (Srnicek, 2017), designando a modulação do capitalismo em que as plataformas tecnológicas ganham centralidade na chamada “economia de compartilhamento”. Referimo-nos, também, ao campo dos “Estudos de Plataforma” (Platform Studies), que investiga as intrincadas conexões entre os processos tecnológicos (especialmente computacionais), culturais, econômicos e políticos presentes nas plataformas digitais (games, mídias sociais, sistemas de busca online, redes de consumo e compartilhamentos e bens e serviços etc)

 

Referências Bibliográficas:

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